EDITORIAL | FATO REAL
Agosto chegou vestido de lilás. Mas, em Conselheiro Lafaiete, a cor da campanha já ganhou um significado dolorosamente concreto.
No mês dedicado ao enfrentamento da violência contra a mulher, a enfermeira Natália, decidiu mostrar o próprio rosto depois de, segundo seu relato, ser brutalmente agredida pelo companheiro. As agressões teriam acontecido dentro de casa e na presença do filho do casal, de apenas um ano.
Segundo Natália, o homem quebrou seu celular para impedir o pedido de socorro, a agrediu e a arrastou para a rua. A intervenção de vizinhos teria interrompido a violência. Depois, vieram novas intimidações. Ela registrou ocorrência e pediu medida protetiva.
O caso chama atenção justamente porque acontece no momento em que o Brasil completa 20 anos da Lei Maria da Penha. Duas décadas depois, a pergunta continua incômoda: quantas mulheres ainda precisam apanhar para que a proteção chegue antes da agressão?
A Lei Maria da Penha avançou. E continua sendo aperfeiçoada. Somente em 2026, novas mudanças legais ampliaram mecanismos relacionados à proteção das vítimas, à retratação e ao monitoramento eletrônico de agressores.
Mas lei nenhuma funciona sozinha.
É preciso polícia preparada, Judiciário atento, rede de assistência funcionando, medidas protetivas fiscalizadas e políticas públicas permanentes. E também é preciso que vizinhos, familiares e amigos entendam que violência doméstica não é problema de casal. É crime.
O Agosto Lilás não pode ser apenas uma campanha com cartazes, discursos e iluminação de prédios públicos. Se a violência continua acontecendo dentro das casas, o compromisso precisa continuar depois que o calendário virar.
E talvez a principal mensagem esteja no rosto de Natália: romper o silêncio exige coragem. Mas impedir que uma agressão termine em tragédia exige que a sociedade também tenha coragem de agir.
Porque amor não quebra celular para impedir um pedido de socorro. Amor não espanca. Amor não ameaça. E definitivamente não transforma a própria casa em lugar de medo.
