A morte, num curto espaço de tempo, de três homens ímpares, todos eles chamados Pablo, cujas vidas foram inteiramente dedicadas ao engrandecimento da cultura mundial por meio de monumentais manifestações artísticas, suscitou o protesto indignado de Vinícius de Moraes. Impactado pela partida do escritor chileno Pablo Neruda, do pintor e escultor malaguenho Pablo Picasso e do catalão Pablo Casals – um mestre do violoncelo, assim se manifestou o mais musical dos poetas brasileiros em suas “Considerações à Margem do Ano Assassino de 1973”:
“Que ano mais sem critério
Este de 73!
Levou para o cemitério
Três Pablos de uma só vez”
Passadas quase cinco décadas, o mesmo fenômeno se repete; porém, não ao longo do ano, mas no decorrer de um único mês que (batamos na madeira!) ainda nem terminou. Este novembro de 2022 entra para a história como um mês de perdas irreparáveis para o entretenimento e as artes do Brasil e da América Latina. Como não temos mais Vinícius pra traduzir em versos nosso espanto, tratemos de manter viva a memória destes que se foram, deixando conosco o legado precioso de suas criações imortais.
Desta vez, não nos despedimos de três Pablos, mas de um apenas, que, pela grandeza de sua obra, transmite a nítida impressão de ter sido muitos num só. Cantor e compositor cubano, Pablo Milanes se inseriu com louvor na galeria dos gênios cultuados pelos brasileiros apaixonados por música. A suavidade do seu canto pode ser apreciada em clássicos como “Yolanda”, cuja releitura antológica por Simone e Chico Buarque alcançou o topo das paradas de sucesso em meados dos anos 80, ou a utópica “Cancion por La Unidad de Latino América”, revisitada por Milton Nascimento ao lado de Chico em “Clube da Esquina 2”, álbum duplo de 1978.

Se nos guiarmos unicamente pela lógica da vida, diremos que um dos gênios que se tornaram imortais neste novembro de 2022 viajou, parafraseando metáfora que ele próprio gostava de usar, mais ou menos dentro do combinado; mas quem poderá convencer nosso afeto e saudade de que as leis naturais são imutáveis? A contribuição de Rolando Boldrin à cultura brasileira é inestimável. Com participações em novelas de sucesso como “Os Imigrantes” e as versões originais de “Mulheres de Areia” e “A Viagem”, Rolando Boldrin se considerava, acima de tudo, ator. Contudo, ousaríamos discordar ligeiramente desta afirmação. Minha geração cresceu acordando com a voz de Boldrin nas manhãs de domingo, contando “causos” e comandando o antológico “Som Brasil”, programa de música regional apresentado pela Rede Globo no começo da década de 80, e tem na sua figura uma espécie de João Gilberto da música caipira: se João eternizou os clássicos da era do rádio entronizando-os no olimpo da “Bossa Nova”, Rolando Boldrin rebobinou verdadeiras pérolas de nomes como João Pacífico, bem como as duplas Alvarenga e Ranchinho e Torres e Florêncio, que, não fosse ele, permaneceriam relegadas ao esquecimento em velhos discos de 78 rotações por minuto. Aos 86 anos recém-completos, o espiritualista Rolando Boldrin se encantou e foi morar, junto com Guimarães Rosa, Mário de Andrade e outras divindades, nas matas Inezitas deste Brasil caboclo.

Relembrando Vinícius, este nada criterioso novembro de 2022 fez um parêntese nas baixas musicais para levar de nosso convívio uma lenda do esporte. Ainda jovem e ativa, com bem curtidos 62 anos de idade, Isabel Salgado conservava intacta a mesma energia que a tornou musa do vôlei. Tanto como as jogadas magistrais que a fizeram rainha das quadras, sua presença solar a tornou lenda das praias cariocas e, mais recentemente, a postura firme e combativa trouxe novamente Isabel ao campo de batalha das rusgas ideológicas. Uma de suas últimas atitudes libertárias foi a publicação de uma carta aberta endereçada a Jair Bolsonaro, na qual elenca as boçalidades cometidas pelo atual Governo, condena, sem meias-palavras, posturas racistas e odiosas do presidente e seus comandados, e denuncia o deliberado descaso com a cultura nacional. No texto, amplamente replicado nas redes sociais, Isabel cita inúmeros artistas brasileiros que influenciaram decisivamente sua formação e se revela, além de musa do vôlei, amante incondicional da MPB.

Ao desfilar com charme e beleza pelas escaldantes areias do Rio, a ponto de ser considerada por muitos a verdadeira garota de Ipanema, Isabel seguia as pegadas de outra musa surgida 10 anos antes. Atriz transgressora que escandalizou a sociedade carioca fazendo declarações desbocadas e expondo sua barriga de grávida ao sol de verão, Leila Diniz foi musa inspiradora do samba “Coqueiro Verde”, que consolidou a maturidade artística de um ídolo da juventude brasileira, detentor de uma das carreiras mais longevas de nossa música, encerrada esta semana com sua partida definitiva para “Além do Horizonte”. Com 38 álbuns gravados e mais de 600 composições registradas, a maioria concebidas em parceria com Roberto Carlos para interpretação do Rei, Erasmo Carlos soube trilhar um caminho todo seu, dando voz a temas que, certamente, não teriam a mesma força interpretativa caso integrassem o repertório do “amigo de fé e irmão camarada”; eram canções com o DNA de Erasmo, que só funcionavam bem na sua voz. Amante do sexo nada frágil, Erasmo cultuou outras musas, além de Leila. A principal delas foi Narinha (também citada em “Coqueiro Verde”), parceira de vida e de canções, mãe de seus três filhos. Mais do que inspirá-lo, as divas de sua vida motivaram o “Tremendão” a também ousar e quebrar tabus. Só mesmo Erasmo Carlos poderia lançar um disco inteiramente erótico, desnudando sem pudor o sexo em todas as posições. A não ser “Sexo”, disco lançado em 2011, não temos conhecimento de nenhum outro álbum (nem mesmo de Wando!) que fale aberta e poeticamente do sexo oral, tal como ocorre na canção “Apaixocólico Anônimo”. É assim, depois de explorar sem medo todas as vertentes da música, do “Yê Yê Yê” ao “Samalanço”, das ingênuas cartinhas de amor aos mistérios da sexualidade, passando pelo mar de baladas românticas que Roberto cantou, que Erasmo Carlos está de novo endereço. Como profetizava uma de suas melhores criações, ele agora vai morar
“Lá, onde a dor não entra
E a tristeza não vai”
Retomando o roteiro das praias cariocas, seguindo os passos cadenciados de Isabel e Leila, chegamos finalmente às dunas daquela que se tornou “Musa de Qualquer Estação”. Sobre Gal, porém, não teríamos, no momento, nada a acrescentar ao muito que já foi dito. O impacto de sua partida inesperada ainda não se desfez. Parafraseando Caetano, em canção que a própria Gal Costa gravou quando Tom Jobim – o “Maestro Soberano” – saiu repentinamente de cena, reiteramos a pergunta: “Quanto tempo pode durar o espanto?” Cremos que a resposta ainda demorará algum tempo a ser dada. Enquanto isso, o único alento é ouvir Gal; agradecer e celebrar sua voz, seu legado, sua vida.
Aimar Souza
Jornalista
