Existe uma angústia que nenhuma família deveria precisar enfrentar: ver alguém que ama ter seu estado de saúde agravado e, justamente no momento em que mais precisa de ajuda, encontrar dificuldades para conseguir uma transferência hospitalar.
Em Conselheiro Lafaiete, infelizmente, essa situação tem sido corriqueira. Pacientes correm risco de ter o quadro clínico agravado enquanto aguardam uma transferência. E pasmem, algumas vezes até para dentro da cidade, seja da UPA para o Hospital e Maternidade São José; ou do São Camilo e Queluz. Enquanto a família acompanha apreensiva a situação clínica do parente, as mobilizações vão tomando forma. O formato é o mesmo: campanhas compartilhadas em rede social, políticos são marcados em postagens, amigos, familiares se envolvem na tentativa de conseguir aquilo que deveria ser uma prioridade absoluta: o atendimento adequado, no tempo necessário.
Até quando famílias terão que transformar o sofrimento em campanha pública para conseguir uma transferência hospitalar?
Até quando será necessário recorrer às redes sociais, pedir ajuda a conhecidos, procurar políticos, judicializar e mobilizar a comunidade para tentar abrir portas dentro de um sistema que deveria funcionar independentemente de quem conhece ou de quem consegue fazer um apelo?
E quando a família não tem acesso às autoridades? E quando não conhece ninguém influente? E quando não tem condições de fazer uma campanha, não sabe a quem recorrer ou simplesmente não consegue fazer sua voz chegar a quem pode ajudar? Esse paciente terá menos chances porque não houve uma mobilização nas redes sociais?
A saúde pública não pode depender da capacidade de mobilização de uma família. O direito ao atendimento não pode estar condicionado ao número de compartilhamentos de uma publicação, à influência de um conhecido ou à intervenção de um político.
É evidente que transferências hospitalares envolvem critérios médicos, disponibilidade de leitos, regulação e procedimentos técnicos. Não se trata de ignorar protocolos ou defender que decisões sejam tomadas sem critérios. A regulação existe justamente para organizar o atendimento e garantir que cada paciente receba a assistência adequada. Mas nenhum protocolo pode se transformar em uma resposta burocrática diante de um quadro clínico que exige atenção. A espera precisa ser acompanhada, justificada e, sobretudo, compatível com a necessidade do paciente.
Não é aceitável que pais, mães, filhos e parentes tenham que passar horas ou dias tentando descobrir quem pode resolver uma situação tão delicada. A discussão precisa alcançar toda a rede de assistência, os fluxos de regulação, a disponibilidade de leitos e a comunicação entre os serviços de saúde.
A vida não pode depender de quem tem mais contatos. A assistência médica não pode depender de quem grita mais alto.
Conselheiro Lafaiete precisa discutir essa realidade. É necessário transparência, acompanhamento dos casos, canais de comunicação acessíveis e respostas efetivas das instituições responsáveis. O verdadeiro desafio não é conseguir resolver um caso depois de uma grande mobilização. É construir um sistema em que nenhuma família precise fazer uma campanha para salvar quem ama.
