EDITORIAL | FATO REAL
A eleição presidencial entrou naquela fase em que cada ponto percentual começa a valer ouro. Faltam poucas horas para o primeiro turno, e uma pergunta ganhou força: o voto útil pode mudar o resultado? Pode. E não é uma hipótese meramente acadêmica.
O voto útil acontece quando o eleitor deixa de escolher necessariamente seu candidato preferido e passa a votar naquele que considera mais competitivo. Na reta final, as pesquisas ajudam a alimentar esse movimento. É uma espécie de corrida eleitoral em que alguns candidatos podem perder votos justamente porque seus eleitores passam a pensar: “Meu candidato não chega lá. Então, vou votar em outro para evitar um resultado que não quero”.
E os números recentes mostram que essa disputa está aberta. E aqui está um detalhe importante. Pesquisa não é urna. A pesquisa pergunta. A urna registra. É justamente nesse intervalo que pode aparecer o voto útil. Imagine o eleitor chegando à cabine de votação. Ali não existe pesquisador, entrevistador, vizinho, grupo de WhatsApp ou comentarista político. Existe apenas o eleitor e a urna. A cabine funciona quase como um confessionário eleitoral. Só que, neste confessionário, ninguém precisa contar para ninguém o que decidiu.
É nesse momento que pode aparecer o chamado voto envergonhado, ou shy voter. O eleitor pode declarar uma coisa numa conversa ou até numa pesquisa e apertar outro número na urna. Isso não significa que toda diferença entre pesquisa e resultado seja causada por esse fenômeno. Há margem de erro, metodologia, abstenção, indecisão e outros fatores.
Mas existe outra variável ainda mais silenciosa: quem declarou que vai votar pode realmente comparecer? É o chamado likely voter, conceito utilizado para tentar identificar o eleitor com maior probabilidade de efetivamente votar. A abstenção pode alterar a proporção final dos votos válidos e, consequentemente, o resultado.
E há uma ironia eleitoral nisso tudo. O candidato não disputa apenas contra seus adversários. Disputa também contra a indecisão, a abstenção e a decisão silenciosa daquele eleitor que só revela sua escolha diante da urna.
Por isso, as próximas horas serão importantes para observar a força do voto útil. Não porque alguém possa afirmar antecipadamente quem vencerá. As pesquisas disponíveis mostram uma disputa apertada, e os próprios levantamentos apresentam diferenças relevantes conforme metodologia, período e amostra.
A grande questão é outra. Até que ponto o eleitor vai votar no candidato que prefere e até que ponto vai votar naquele que considera capaz de chegar ao segundo turno? Essa resposta não estará nas redes sociais. Não estará no debate. Não estará no grupo da família.
Estará, silenciosamente, na urna eletrônica. E talvez seja justamente aí que a eleição de 2026 revele a sua parte mais difícil de medir: o voto que o eleitor não conta para ninguém.
