Na tarde de sexta-feira, 02 de outubro, debaixo da chuva, um menino de apenas 9 anos saiu de Conselheiro Lafaiete com a mãe carregando um sonho que, para ele, parecia enorme.
Miguel queria ver Lula.
Queria chegar perto. Queria olhar nos olhos. Queria, quem sabe, tocar a mão daquele homem que, dentro de sua casa e de sua imaginação de criança, ocupa um lugar especial. Era um sonho de menino. Mas sonhos de menino não têm tamanho.
A mãe, Júlia Chagas, além da ansiedade de adulto em também ver Lula, carregava a preocupação de que o filho perderia um dia de atividade em sala de aula, na Escola Municipal Luiz Carlos Gomes Beato, em Lafaiete.
Durante a viagem, a ansiedade do garotinho só aumentava. E quando finalmente chegaram à manifestação, a chuva, a multidão e a distância entre ele e o presidente não foram suficientes para fazê-lo desistir. Pediu, insistiu, procurou um caminho alternativo. Até que conseguiu se aproximar.
E então aconteceu aquilo que nenhuma fotografia ou palavra consegue explicar completamente. Lula estava de costas. Miguel nos ombros da mãe, gritava por ele e chorava. Chorava de emoção, de nervosismo, de felicidade. Chamava pelo presidente, tentando fazer com que ele olhasse para trás.
Foi quando a emoção daquele menino começou a chamar a atenção de quem estava ao redor. Primeiro, algumas pessoas perceberam. Depois, outras começaram a pedir:
“Olha para ele Lula”. E foram tantas vozes que Lula se virou.
E a magia aconteceu. Miguel com os olhos cheios de lágrimas e o coração, provavelmente, batendo mais forte do que nunca, estava frente a frente com Lula. As mãos se encontraram.
E naquele instante a política ficou, por algum momento, em segundo plano. Ficou apenas um menino diante de alguém que ele sonhava conhecer. Um senhor de 80 anos.
A cena foi registrada por fotógrafos, jornalistas e pessoas que estavam no local. A imagem se espalhou e apareceu em diferentes publicações, inclusive nos canais oficiais de Lula. A legenda escolhida para a fotografia dizia: Ele chorando que não vai ter idade pra votar no Lula… A gente vota por você, meu filho! Bora Lula! Bora pra última dança!
O choro de Miguel era de quem imaginou, insistiu e realizou. E há algo genuíno nisso. Porque a vida adulta, tantas vezes, nos ensina a esconder os sentimentos. A disfarçar a emoção. A controlar o entusiasmo. A fingir que não nos importamos tanto. O tal “fingir normalidade” diante de um homem que carrega na bagagem de vida tantas histórias, como Lula. Um estadista respeitado mundialmente.
Miguel fez exatamente o contrário. Ele não teve vergonha de chorar. Não teve vergonha de demonstrar admiração. Não teve vergonha de viver intensamente aquele momento.
A mãe saiu de casa preocupada que o filho perderia um dia de aula. O conteúdo perdido, certamente, poderá ser recuperado. Caderno se atualiza. Matéria se aprende. Prova se refaz. Mas há experiências que não estão nos livros.
Miguel aprendeu, naquela sexta-feira, uma lição que nenhuma sala de aula conseguiria reproduzir exatamente: que existem sonhos que exigem coragem, insistência e, às vezes, até uma viagem debaixo de chuva.
Aprendeu que nem sempre conseguimos aquilo que desejamos. Mas também aprendeu que, às vezes acontece. E quando conseguimos, talvez seja permitido chorar.
Aquela fotografia que hoje circula por tantos lugares não registra apenas o encontro de um menino com um presidente. Observação mais detalhada nos leva a imaginar que seja o presente se despedindo, mas olhando para o futuro. “Seja eu amanhã”, disse Lula no Flow Podcast, um dia antes.
Talvez o momento que vivemos tenha levado tanta gente a olhar para a emoção de Miguel. Porque, no fundo, todos nós carregamos algum Miguel dentro de nós. E o Miguel aos nove anos realizou o sonho que muito adulto não conseguiu ainda.
Gina Costa
Jornalista que viajou no mesmo ônibus que Miguel, e com os mesmos sonhos da criança.
