EDITORIAL | FATO
A primavera chegou. E, desta vez, talvez seja melhor não confiar tanto no calendário. A estação começou oficialmente na noite de terça-feira (22). É a época das flores, das cores e da renovação da natureza. Mas também é o período em que o Brasil precisa ficar atento a uma atmosfera cada vez mais difícil de prever.
Os órgãos oficiais de meteorologia apontam a presença de um El Niño muito forte. Para o trimestre entre setembro e novembro, há mais de 90% de probabilidade de manutenção desse cenário. As projeções indicam temperaturas acima da média em praticamente todo o país.
Em Minas Gerais, a situação merece atenção especial. As previsões apontam maior probabilidade de chuva abaixo da média em parte do Estado durante esse trimestre. Ao mesmo tempo, o calor tende a permanecer acima do normal. Essa combinação pode aumentar o déficit hídrico e o risco de incêndios florestais.
E há um dado que ajuda a dimensionar o tamanho do problema. Um estudo do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago estima até 451 mil mortes relacionadas ao calor extremo no mundo entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. Para o Brasil, a projeção chega a 13,3 mil mortes adicionais. Esse número é uma estimativa para o país inteiro. A maior concentração projetada está nas regiões Norte e Nordeste.
Mas o alerta serve para todos. A Organização Mundial da Saúde também chamou atenção para os riscos associados ao El Niño, entre eles ondas de calor, incêndios, piora da qualidade do ar e aumento de doenças transmitidas por mosquitos.
E é justamente por isso que discutir o clima antes da tragédia acontecer não é exagero. É planejamento. Em Conselheiro Lafaiete, um seminário realizado nesta semana colocou o El Niño e seus possíveis efeitos regionais no centro do debate. O encontro reuniu a discussão sobre climatologia, prevenção, gestão de riscos, eventos extremos e preparação dos municípios.
Isso diz alguma coisa. O clima deixou de ser uma conversa apenas para quem olha o aplicativo do celular antes de sair de casa. É assunto para a Defesa Civil, para os gestores públicos, para os profissionais de saúde, para quem trabalha com infraestrutura, para as escolas e para cada morador.
Porque quando a chuva vem forte, não adianta descobrir depois onde estavam as áreas de risco. Quando o calor aperta, não adianta lembrar depois dos idosos, das crianças e de quem trabalha exposto ao sol. Quando o fogo começa, não adianta perguntar depois por que faltou prevenção.
A natureza continuará fazendo a parte dela. O problema é que nós precisamos fazer a nossa. A primavera pode, sim, trazer flores, esperança e renovação. Mas também traz um recado bastante objetivo: diante de um clima mais extremo e menos previsível, prevenir deixou de ser uma escolha. É uma necessidade!
