EDITORIAL| FATO REAL
Hoje, 21 de setembro, é o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Mais do que uma data no calendário, é um convite para olhar para uma realidade que muitas vezes só é percebida por quem enfrenta as barreiras todos os dias. No Brasil, o Censo 2022 identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência entre a população de dois anos ou mais. São 7,3% desse grupo.
E quando se fala em acessibilidade, não se fala apenas em grandes obras. Fala-se da calçada. Da faixa de pedestres. Da rampa. Do transporte. Da escola. Do atendimento em uma repartição pública. Da possibilidade de entrar em uma loja e simplesmente circular por ela. Parece básico. E é, mas o básico ainda não está garantido para todos.
Dados do IBGE mostram que, em 2022, apenas 18,8% dos moradores do país viviam em vias com calçadas livres de obstáculos. E, nas áreas urbanas, 68,8% dos moradores estavam em vias sem rampa para cadeirantes. Isso ajuda a entender por que uma calçada irregular não é apenas uma calçada ruim.
Para quem usa cadeira de rodas, pode ser um bloqueio. Para uma pessoa com deficiência visual, a falta de sinalização pode representar risco. Para uma pessoa surda, a ausência de comunicação adequada pode transformar um atendimento simples em uma situação de exclusão. E há um detalhe que precisa ser lembrado: acessibilidade não é favor. É direito.
Em Conselheiro Lafaiete, o tema ganhou um novo instrumento neste ano. A Prefeitura lançou a Cartilha Municipal de Acessibilidade 2026, com orientações para calçadas, rampas, piso tátil, vagas reservadas, acessos e sanitários. O documento também estabelece responsabilidades para proprietários, profissionais e poder público. A cidade também possui o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, criado por lei e com registros de conferências, reuniões e deliberações sobre o tema.
Mas aqui está o ponto central deste editorial. Uma cartilha não transforma uma calçada. Uma lei não remove sozinha uma barreira. E uma placa de vaga reservada não impede, por si só, que alguém estacione onde não deveria. A inclusão precisa sair do papel e chegar à rua.
Também depende de cada cidadão. Quando alguém estaciona sobre a calçada, ocupa uma vaga reservada ou coloca mesas, mercadorias e objetos no caminho de pedestres, cria uma barreira. Às vezes, basta um pouco de respeito para que outra pessoa consiga seguir seu caminho.
Por isso, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência não deveria ser apenas uma data de discursos. Deveria ser uma pergunta simples: A cidade está preparada para todos ou apenas para quem consegue superar seus obstáculos sozinho?
Lafaiete tem instrumentos, normas e espaços de participação. O próximo passo é fazer com que tudo isso seja percebido na vida cotidiana. Porque inclusão de verdade não é apenas abrir a porta. É garantir que todos consigam chegar até ela, entrar e permanecer. E isso não é gentileza. É cidadania.
