EDITORIAL | FATO REAL
Existe uma contradição que precisa ser enfrentada com seriedade. A população cobra praças melhores, quadras reformadas, pontos de ônibus conservados e espaços para convivência. Mas, quando esses equipamentos são construídos ou recuperados, ainda há quem trate o patrimônio público como se não tivesse dono.
Tem dono, sim. Somos todos nós.
O caso mais recente em Conselheiro Lafaiete é emblemático. A quadra da Rua Brasil, no Jardim América, ainda estava em reforma quando teve o piso atingido por óleo diesel. A pintura foi danificada e precisará ser refeita. A reforma também previa atividades esportivas gratuitas, incluindo aulas de futsal. Ou seja, alguém não prejudicou apenas uma obra. Prejudicou crianças, jovens e moradores que esperavam utilizar aquele espaço.
E não é um problema isolado. O Cristo, um dos símbolos de Lafaiete, historicamente sofre com pichações e depredações. A própria Prefeitura já relatou situações em que a limpeza era realizada e, pouco depois, o monumento voltava a ser alvo de pichações.
O Túnel também enfrenta o mesmo problema.
É preciso fazer uma distinção clara. Grafite autorizado pode ser manifestação artística. Pichação sem autorização é outra coisa. A legislação federal prevê punição para quem picha ou danifica edificações e monumentos urbanos. No caso de monumentos ou bens tombados, a legislação estabelece tratamento mais rigoroso.
Mas existe uma questão ainda maior. Quanto custa o vandalismo?
Custa material. Custa mão de obra. Custa tempo. Custa fiscalização. E custa a oportunidade de fazer outra coisa com o dinheiro público.
Quando uma pintura precisa ser refeita porque alguém derramou óleo diesel em uma quadra recém-reformada, o recurso que deveria financiar uma nova melhoria acaba sendo usado para consertar o estrago.
É quase uma matemática perversa: a cidade investe para melhorar e alguém aparece para devolver a cidade ao ponto de partida. Por isso, não basta apenas pedir mais câmeras, fiscalização e punição. Tudo isso é necessário. Mas também é preciso criar uma cultura de pertencimento.
A praça não é da Prefeitura.
A quadra não é da Prefeitura.
O ponto de ônibus não é da Prefeitura.
O Cristo não é da Prefeitura.
Tudo isso é público. Portanto, é de todos.
E quem destrói patrimônio público não está prejudicando um governo. Está prejudicando o próprio vizinho, a própria comunidade e, no fim das contas, a si mesmo.
A pergunta que fica para Lafaiete é simples: que cidade queremos deixar para as próximas gerações? Uma cidade onde se constrói e se preserva ou uma cidade onde o poder público reforma e alguém destrói?
O patrimônio público não precisa apenas de manutenção. Precisa de respeito. Porque o prejuízo pode até aparecer na conta da Prefeitura.
Mas a conta, no final, chega para todos.
