EDITORIAL | FATO REAL
A Gerdau prepara um plano de transformação que poderá redesenhar sua operação no Brasil ao longo da próxima década. A estratégia prevê reorganização de fábricas, fechamento de estruturas menos competitivas, investimentos em unidades modernas, expansão da mineração e maior concentração no mercado nacional.
A mudança vai além do aumento da produção. A empresa pretende alterar a forma de produzir aço e tornar a operação brasileira mais eficiente e tecnológica. Hoje, 74,1% do Ebitda da Gerdau vêm dos Estados Unidos, enquanto o Brasil responde por 20,1%. Há nove anos, a relação era praticamente inversa.
A nova estratégia mira setores com potencial de forte consumo de aço, como infraestrutura, energia e data centers. Para isso, algumas estruturas atuais deverão ser encerradas ou substituídas. A companhia já decidiu interromper a produção de aço em uma unidade do Nordeste, com desligamento de cerca de um terço dos funcionários. Também avalia substituir pelo menos duas operações menos rentáveis por uma fábrica mais moderna.
Em Minas Gerais, outro movimento reforça a estratégia. A expansão da Mina de Miguel Burnier, em Ouro Preto, recebeu R$ 3,2 bilhões e deve iniciar a produção comercial no terceiro trimestre de 2026. A previsão é alcançar 5,5 milhões de toneladas de minério de ferro por ano.
Com maior produção própria de minério, a Gerdau poderá reduzir custos, melhorar margens e ainda comercializar excedentes. A mineração, hoje, aparece como uma atividade estratégica dentro da transformação da companhia.
Outro ponto é a redução da dependência das exportações brasileiras. Juros elevados, câmbio, custos industriais, tributação, concorrência internacional e o preço do gás natural são apontados como obstáculos à competitividade.
A China também está no centro desse cenário. O governo brasileiro vem adotando medidas antidumping contra determinados produtos siderúrgicos. Em fevereiro de 2026, foram aplicados direitos antidumping definitivos sobre laminados planos a frio provenientes da China.
A estratégia da Gerdau revela um desafio maior para o Brasil: definir qual indústria pretende construir nas próximas décadas. A questão envolve competitividade, tecnologia, produtividade, empregos e capacidade de agregar valor à produção nacional.
A empresa encontrou nos Estados Unidos condições favoráveis para crescer e agora busca trazer parte dessa experiência para o Brasil. O desafio será transformar investimentos em produtividade e produtividade em empregos de qualidade.
Mais do que uma nova fábrica, a transformação da Gerdau depende também de um ambiente capaz de sustentar a indústria brasileira. A discussão, portanto, ultrapassa os limites da empresa e chega à própria política industrial do país.
