EDITORIAL | FATO REAL
Toda semana, um novo pedido de socorro aparece nas redes sociais. Uma família procura uma vaga hospitalar. Outra precisa de uma transferência. Há quem peça atendimento médico e, diante da demora, recorra à internet para marcar vereadores, prefeito, secretarias e até a imprensa.
Em Lafaiete, esse cenário também preocupa. Por que uma família precisa expor a própria dor para conseguir um atendimento que deveria funcionar pelos canais oficiais?
A saúde pública tem regras, protocolos e diferentes níveis de responsabilidade. Nem toda transferência depende diretamente da prefeitura. Vagas hospitalares e atendimentos de maior complexidade envolvem uma rede regional e, muitas vezes, diferentes esferas de governo.
Mas reconhecer essa complexidade não significa aceitar a demora como algo normal. Em Minas Gerais, o sistema de regulação para transferências de leitos e serviços de saúde do SUS passou recentemente por mudanças, com a utilização do CORE. E são justamente essas mudanças que precisam ser acompanhadas e cobradas quando surgem relatos de dificuldades, demora ou falta de resposta.
Porque, convenhamos, paciente internado não pode esperar o algoritmo das redes sociais decidir quando sua história vai viralizar. A internet pode ajudar. Uma publicação alcança autoridades rapidamente e, em alguns casos, chama atenção para situações que estavam paradas. Mas transformar a rede social em porta de entrada para o atendimento é inverter a lógica do serviço público.
Saúde não pode depender de curtidas. Não pode depender de quem conhece um vereador. Não pode depender de quem consegue marcar o prefeito em uma publicação. E muito menos da capacidade de uma família transformar o próprio sofrimento em campanha pública.
É justamente nesse ponto que entra a responsabilidade política.
Vereadores têm o dever de fiscalizar. O prefeito e a administração municipal precisam agir dentro de suas competências e cobrar os demais responsáveis quando o problema ultrapassar os limites do município.
Mais do que disputar quem será o responsável pela solução, é preciso garantir que ela aconteça. Quando uma família publica um pedido desesperado, o poder público deveria enxergar ali um sinal de alerta. Não apenas mais uma postagem nas redes sociais.
É preciso saber onde o sistema está falhando. É preciso cobrar respostas. É preciso acompanhar os casos e dar transparência aos procedimentos. Porque o cidadão não pode ser obrigado a transformar uma emergência médica em um problema político para conseguir ser ouvido. A saúde pública não pode funcionar à base do compartilhamento.
Atendimento não é favor. Transferência não é favor. E salvar uma vida não pode depender da próxima publicação na internet.
Essa é uma cobrança que precisa ser feita por toda a sociedade, independentemente de partido, governo ou grupo político. No fim das contas, quando a população precisa gritar nas redes para conseguir atendimento, o problema já deixou de ser apenas de uma família. É um sinal de que o sistema precisa explicar por que não está conseguindo responder antes que o grito venha.
