Sede! Tenho sede! Mal sabia que hoje iria caminhar sobre cacos de vidro. Ouviria infinitas vezes as vozes dos últimos ensaios no mês passado, teria a retina inundada pelo rosto dela. Piso em cacos de vidros, ou serão brasas incandescentes?
Vou lá no passado, naqueles loucos anos da década de 80, e a vejo no barzinho que havia montado em sua casa e onde, nos fins de semana, bebíamos, ríamos, conspirávamos sobre teatro. Daquelas conversas nasceu o convite e Lúcia Martins disse sim às artes cênicas. Alegria: mais uma pessoa de minha confiança para uma nova montagem teatral.
Milhares de imagens invadem minha cabeça, me jogo num labirinto, mas o som da voz e o brilho de seus olhos me invadem por inteiro. Ao meu lado, onde ensaiávamos, há a carteira de escola onde Lúcia se sentava e lia o texto, e ria, e tinha ideias, e se maravilhava plena com a ideia de pisar no palco no FACE.
Ah, e os cafés nas tardes de todas as estações do ano para falar sobre nossas inquietudes, nossas alegrias, nossas dores – a vida como ela sempre foi.
Deve agora estar num sono muito profundo, pois é merecedora de todo descanso que cabe no mundo, já que tinha uma ansiedade nascida antes: não era de deixar para o ontem o que se pode fazer no agora. Assim era, é e continuará sendo para todos nós a Lúcia franca, audaciosa, tímida, terna, debochada… Humanidade em espiral.
Piso em cacos de vidro, mas meus pés não sangram: é que ela e eu temos uma amizade de corações amarrados um ao outro; amizade essa capaz de claros dias de sol e nubladas tempestades: sempre saíamos inteiros – terapia a dois. Largas horas ao telefone na tentativa de desvendar o mistério da existência humana. E agora me questiono: pra que desvendar tal mistério? Ele é em si, pleno, intransponível. Talvez agora ela o entenda e esteja rindo de mim…
Mas o fato é e está posto à nossa frente: a atriz vestiu asas e partiu. E nada há de errado nisso. Espiritualista, não deve estar assustada, provavelmente encantada. EnCANTAda. Não há quem não se encante ao ter asas e voar para um além que desconhecemos, mas será o destino de todos nós. Amém!
Paulo Antunes /Professor, escritor, ator
