Começo esse texto com dados importantes: 43% das mulheres evangélicas relatam já terem sofrido algum tipo de violência de gênero ou doméstica. Dessas, 53% procuram a igreja em primeiro lugar em busca de ajuda – que, muitas vezes, não chega.
Ao contrário: mulheres, não raro, ouvem de seus líderes religiosos que devem orar mais – que “a mulher sábia edifica o lar”. Para uma mulher cujos laços familiares e sociais se circunscrevem à igreja, essas falas colocam sobre ela o peso da responsabilidade da manutenção da família.
Quando pensamos que o agressor comumente divide com ela a mesma fé e a frequência ao mesmo templo, vê-se o tamanho da omissão institucional em relação a um crime que coloca o Brasil como o quinto país do mundo em assassinato de mulheres.
Nesse contexto, a fala de Cecília deveria colocar de joelhos implorando perdão todos os líderes que se omitem.
[…] eu pedi ajuda à igreja e a igreja negou ajuda. […] Ah, eu cheguei no líder da igreja e falei e expliquei o que ‘tava’ acontecendo. Aí o líder da igreja falou que eu tinha que suportar por causa de uma crença, por causa da religião e da igreja. (Cecília) (3).
Mas, infelizmente, a omissão tão crassa de tantos, que coloca mulheres evangélicas na linha de fogo, passa despercebida como exercício legítimo da fé.
É preciso que se compreenda que a desqualificação da mulher, o peso injusto colocado sobre ela, a omissão de socorro em casos de violência são fatores que contribuem para a manutenção dos índices vergonhosos que assolam nosso país.
Até mesmo na Câmara da nossa cidade, fazendo uso da palavra franca, tivemos um pastor que refletiu o que de pior há no discurso extremista misógino quando, sem pestanejar, disse que havia muitas leis que protegiam as mulheres em detrimento dos homens. Que muitos pobres homens têm suas vidas arrasadas por falsas denúncias. Que são condenados sem investigação apropriada, com base em invenções de uma ex-companheira vingativa. (4).
Finalizou seu discurso irresponsável dizendo que os homens deveriam fazer mais leis para proteger homens, já que estariam expostos em um mundo que só protege mulheres.
Não é difícil perceber que esse tipo de discurso é exatamente o que leva mulheres evangélicas ao topo da pior maneira: como aquelas que estão mais expostas a esse tipo de crime.
Afortunadamente, evangélicos não são um bloco e há vozes que se posicionam, como a pastora Helena Raquel. Mas chama a atenção que ela e outros que falam sobre isso sofram críticas de importantes nomes do meio que tentam, inclusive, desqualificar os dados.
Percebe-se que é necessário que haja uma profunda reflexão por parte de todos os adeptos do evangelismo em virtude da maneira como as mulheres se veem, muitas vezes, desamparadas em seu meio. Recomendo a leitura dos depoimentos na pesquisa usada para a composição desse texto. É de se sentir impotente e com raiva com tanto desalento (3).
É claro que a violência doméstica está em todas as religiões, classes sociais, raças/cores. Por isso deve ser um compromisso de toda a sociedade combatê-la.
Porém, a reação imediata a números como os citados aqui não pode ser a de negá-los. Deve ser a de entender de onde vêm e onde está o erro para que seja corrigido.
Afinal, deixar mulheres indefesas e sem socorro deve ser algum tipo de pecado ou falta de amor cristão. Ou não?
Fontes
- CASSIANO, Carol. Violência doméstica entre mulheres evangélicas expõe omissão institucional. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/117371/violencia-domestica-entre-evangelicas-expoe-omissao-institucional
- COSTA, Jhenifer. Estudo aponta que 40% das evangélicas sofrem violência doméstica. In: Notícias adventistas. 2016. Disponível em: https://noticias.adventistas.org/pt/estudo-aponta-que-40-das-evangelicas-sofrem-violencia-domestica/
- NUNES, Ana Clara; SOUZA, Tatiana M. C. Análise das vivências de violência doméstica em mulheres evangélicas pentecostais e neopentecostais. 2021. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702021000200006
- Câmara Municipal de Conselheiro Lafaiete. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8C0wUv4Rzns&t=2527s
Sugestões de leitura
Infográfico “Segurança em números 2025” disponível: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2025/07/anuario-2025-infografico.pdf
Nota
Imagem gerada por IA.
