A sessão da Câmara Municipal de Conselheiro Lafaiete, realizada nesta terça-feira (26), terminou em clima de indignação após o uso da Tribuna Popular pelo pastor Juliander Dias Barbosa, que se identificou como representante da Assembleia de Deus – O Chamado da Salvação. O cidadão utilizou os 10 minutos de fala para atacar políticas de proteção às mulheres, questionar a Lei Maria da Penha e defender que vereadores criem medidas voltadas “aos direitos dos homens”. Além de se posicionar contra o fim da escala de trabalho 6 x 1.
A manifestação provocou reação imediata de vereadoras e parlamentares masculinos presentes, que classificaram o discurso como ofensivo, misógino e intimidatório. O documento protocolado na Câmara, datado de 19 de maio, solicitava espaço para abordar o tema “Direitos e valores da família tradicional nos dias atuais”. Durante a fala na Tribuna Popular, o pastor, que afirmou ter sido convidado pelo vereador Pastor Angelino, passou a atacar legislações de proteção às mulheres.
Ao afirmar que “a Lei Maria da Penha só favorece a mulher” e sugerir a criação de um “botão do terror” para homens denunciarem agressões femininas, o discurso gerou forte reação no plenário. Embora tenha afirmado ser contra agressões e defendido prisão para homens violentos, Juliander disse que homens inocentes estariam sendo perseguidos por falsas denúncias registradas em delegacias.

Em outro trecho, ele declarou que vereadores poderiam futuramente “sofrer consequências” ao aprovarem políticas públicas voltadas às mulheres. A declaração foi interpretada por parlamentares como ameaça velada dentro da própria sede do Legislativo. O pastor Juliander Dias ainda afirmou que os vereadores fazem projetos contra a família tradicional.
A primeira reação veio da vereadora Gina Costa, que saiu do plenário em protesto e ao voltar rebateu o discurso defendendo as mulheres submetidas à rotina exaustiva de trabalho e denunciando os altos índices de feminicídio no país. Em tom firme, a vereadora mandou um “boa noite especial” para sua “família não tradicional” e para mulheres submetidas à rotina exaustiva da escala 6 por 1, destacando o peso enfrentado diariamente por milhares de trabalhadoras. A parlamentar citou casos recentes de violência contra mulheres em Minas Gerais, como da mulher que foi jogada de um penhasco na Serra do Rola Moça, e afirmou que políticas públicas existem para enfrentar desigualdades históricas.
A vereadora Simone do Carmo também pediu providências formais da Mesa Diretora. Segundo ela, a tribuna livre não pode servir como espaço para discursos discriminatórios e ataques às mulheres. A vereadora Damires Rinarlly afirmou ter se sentido ameaçada após as declarações sobre “consequências” e cobrou medidas rigorosas da Câmara. A presidente Cida Toledo também manifestou-se indignada.
Reação masculina
Além das mulheres presentes, o episódio ainda provocou reação de vereadores homens, que se posicionaram publicamente em defesa das parlamentares. João Paulo pediu desculpas “em nome dos homens” às vereadoras, assessoras e servidoras da Câmara, afirmando que o discurso não representa a população masculina.
Já o vereador Erivelton Jayme classificou a manifestação como “a pior tribuna” já vista na Casa e disse que pessoas com este tipo de pensamento não são bem-vindas. Ele também defendeu mudanças no regimento para impedir que a Tribuna Popular seja usada para disseminação de ódio.
Outros vereadores seguiram a mesma linha de estarrecimento diante do ocorrido e se pronunciaram: Oswaldo Barbosa, Fernando Bandeira, Pedro Américo, Roger Diego, Pastor Angelino e Samuel Carlos.
Ao final da sessão, a vereadora Gina Costa afirmou que nenhuma das vereadoras irá recuar diante de intimidações e reforçou que o caso será levado às autoridades competentes para apuração. A Polícia Militar foi acionada, no entanto o pastor Juliander saiu minutos antes da chegada das viaturas. Foi feito um boletim de ocorrência pelo crime de injúria misógina. As vereadoras também farão uma representação formal junto à Polícia Civil.
