Barbacena encerrou na segunda-feira (25) um dos capítulos mais dolorosos da história da saúde mental no Brasil. Os últimos 14 pacientes que ainda viviam no antigo hospital-colônia foram transferidos para uma residência terapêutica preparada para acolhimento permanente no município.
Com a mudança, o Centro Hospitalar Psiquiátrico passa a atuar exclusivamente no atendimento de crises agudas e serviços ambulatoriais, conforme os critérios da Rede de Atenção Psicossocial do SUS. O encerramento simbólico do ciclo foi marcado pelo fechamento com cadeado da porta do Pavilhão Antônio Carlos, gesto que representou o fim definitivo do modelo de isolamento que marcou gerações.
A transferência ocorreu no fim de semana e colocou fim a décadas de internações prolongadas. Os moradores viveram, em média, 49 anos dentro da instituição. Atualmente, a média de idade é de 73 anos e três deles chegaram ao local antes dos 15 anos.
Muitos foram internados em períodos em que abandono familiar, sofrimento psíquico leve ou comportamentos considerados inadequados pela sociedade eram motivos suficientes para confinamento. Agora, passam a viver em ambiente terapêutico com acompanhamento multiprofissional, assistência contínua e convívio social.
A história do hospital revela números que expõem a dimensão da tragédia humanitária registrada em Barbacena. Entre 1942 e 2020, cerca de 40 mil pessoas passaram pela instituição e aproximadamente 24 mil morreram no local.
Em determinados períodos, o hospital chegou a reunir 3.500 pacientes simultaneamente. Durante a cerimônia, a presidente do Conselho Estadual de Saúde, Lourdes Machado, relembrou a luta antimanicomial e afirmou que garantir dignidade aos antigos internos é uma reparação histórica necessária diante das violações registradas ao longo do século passado.
Ao longo das décadas, o local virou símbolo nacional do modelo manicomial marcado por superlotação, abandono e violações de direitos humanos. As denúncias ganharam repercussão por meio de reportagens, fotografias e documentos que revelaram as condições enfrentadas pelos internos. Parte dessa memória permanece preservada no Museu da Loucura, criado para registrar uma história que Minas Gerais busca impedir que volte a se repetir.
