No Brasil, o rádio ainda mantém forte presença no cotidiano da população. Dados do estudo Inside Audio 2024, da Kantar IBOPE Media, apontam que 79% dos brasileiros nas principais regiões ouvem rádio regularmente. O tempo médio diário chega a 3 horas e 47 minutos, um índice que revela fidelidade e hábito consolidado.
Enquanto isso, os podcasts avançam, mas em ritmo diferente. Segundo a PodPesquisa 2024/2025, realizada pela ABPod, cerca de 32 milhões de brasileiros consomem o formato, o que representa algo entre 15% e 20% da população adulta. O público é majoritariamente jovem, com destaque para a geração Z (14 a 27 anos), e concentra interesse em temas como comédia, música, esportes e educação.
EUA
Nos Estados Unidos, no entanto, o cenário segue em outra direção. Pela primeira vez, os podcasts ultrapassaram o rádio AM/FM como principal meio de consumo de áudio falado no país, marcando uma virada histórica no comportamento do público. O dado, divulgado pela pesquisa Share of Ear da Edison Research, revela que os podcasts concentram 40% do tempo de escuta, contra 39% das rádios tradicionais. A mudança evidencia uma transformação impulsionada pela tecnologia, pelo consumo sob demanda e pela força das plataformas digitais.
O avanço não aconteceu de forma gradual. Há dez anos, o rádio dominava absoluto com ampla vantagem, detendo cerca de 75% do tempo de audiência, enquanto os podcasts representavam apenas 10%. O salto registrado após 2021 indica uma ruptura cultural. O modelo tradicional, baseado em programação linear, perde espaço para a lógica do conteúdo personalizado, onde o ouvinte escolhe o que ouvir e quando ouvir.
Um dos fatores determinantes desse crescimento é a convergência entre áudio e vídeo. Dados divulgados pelo YouTube mostram que, em 2025, usuários assistiram a cerca de 700 milhões de horas mensais de podcasts em televisores. O número praticamente dobrou em relação ao ano anterior e revela que o podcast deixou de ser apenas um formato auditivo para ocupar também a sala de estar, disputando atenção com a televisão tradicional.
Para o analista de mídia Tom Webster, da Edison Research, o fenômeno reflete uma mudança estrutural. Segundo ele, o podcast não substitui apenas o rádio, mas redefine a forma como as pessoas se relacionam com o conteúdo. Ele afirma que o controle do usuário sobre o consumo é o principal motor dessa transformação.
Mercados distintos
A diferença entre os dois países expõe mais do que uma questão tecnológica. No Brasil, o rádio ainda ocupa espaços que o digital não conseguiu substituir completamente. Ele está presente no transporte público, nos ambientes de trabalho e em aparelhos simples, acessíveis a diferentes camadas da população. Além disso, mantém forte vínculo com a informação local. Cerca de 58% dos ouvintes afirmam confiar no rádio como principal fonte de notícias.
Apesar disso, os dados indicam uma convergência em curso. Aproximadamente 43% dos ouvintes de rádio também consomem podcasts, sinalizando que os formatos não são rivais diretos, mas complementares. O público transita entre eles conforme o contexto do dia, alternando entre a praticidade do ao vivo e a liberdade do sob demanda.
A tendência global aponta para um reposicionamento do rádio, que precisa se adaptar para não perder relevância. Ao mesmo tempo, o crescimento dos podcasts levanta questionamentos sobre concentração de audiência em grandes plataformas e o impacto na diversidade de vozes.
No fim, o que está em jogo não é apenas a disputa entre dois formatos, mas a forma como a sociedade consome informação, entretenimento e opinião. Nos Estados Unidos, a virada já aconteceu. No Brasil, ela ainda está em curso, cercada por desigualdades de acesso que mantêm o rádio, ao menos por enquanto, no centro da escuta.
