Nosso país acompanha chocado os acontecimentos no Rio de Janeiro que terminaram com uma pilha de corpos, que inclui policiais, traficantes e, clamam alguns, inocentes. Para comentar isso, é importante que se diga que não sou o tipo de pessoa que acha incorreto que alguém em confronto com a polícia acabe morto. Não. Defendo o uso gradativo/progressivo da força e o resultado morte é algo previsto pela legislação. Também, de maneira dura e crua, penso que se alguém tem que ir para o caixão em um confronto legítimo, que não sejam nossos policiais.
Mas a questão é: de uma pilha de mais de uma centena de mortos, alguns mortos com tiro na nuca e facadas nas costas segundo O Tempo, quais deles estavam efetivamente em confronto com a polícia trazendo a morte sobre si mesmos?
É uma pergunta impossível de responder uma vez que a polícia não cumpriu com uma de suas atribuições, que é preservar o local onde estão os cadáveres de mortos em ações de forma que se possa periciar e constatar cientificamente o que aconteceu para dar prosseguimento ao devido processo legal.
Em vez disso, o que se viu foi a polícia invadir a favela, deixar uma montanha de falecidos para trás, para que fossem recuperados pelos próprios familiares e amigos, em uma ação macabra. Vimos adultos e, ao menos, uma criança participando ativamente da coleta e exposição dos mortos enfileirados na praça.
Nesse contexto, é impossível não mencionar a fala de uma moradora dizendo que, na favela, traficantes fazem o que o Estado não faz e garantem uma certa dose de paz social. A criminalidade não seria tão ampliada e influente caso sucessivos governos tivessem cumprido seu papel, não apenas de combate às facções, mas também no fornecimento de aparelhos e serviços públicos que incluem áreas como educação e economia, como escolas, postos de saúde, policiamento e empregabilidade. Na ausências dessas sempre haverá quem veja o crime como opção de forma que soldados do CV, PCC, TCP – e quaisquer outras siglas – são substituídos na velocidade da luz, quando viram cadáveres.
Também é importante não ignorar a ação eleitoreira: matar preto e pobre classificando-os indiscriminadamente como “traficantes” dá votos com a parcela da população que acha que “bandido bom é bandido morto”. O que esses se recusam a entender é que em situações extremas, o policial também acaba morto, seja no confronto, seja com as altas taxas de suicídio causadas pelas pressões da profissão de quem vê o pior da humanidade.
A megaoperação executada exclusivamente pelas polícias do Rio de Janeiro tinha o objetivo de executar 100 mandados de prisão e 180 de busca e apreensão. Porém as perguntas, tanto quanto os cadáveres, se acumulam. Quais dos objetivos foram alcançados? Quem são os mortos? Quais estavam em confronto? Por que os corpos foram abandonados na mata sem assegurar que o local fosse periciado? Por que havia policiais inexperientes na linha de frente, como Rodrigo Cabral, com apenas 40 dias de corporação? A inteligência falhou ao não prever o capacidade combativa dos traficantes, que possuíam até drones lançando granadas (estratégia já usada anteriormente em guerra entre facções)? A operação saiu do controle? Por que as instâncias federais não foram chamadas a participar de uma operação tão grande, inclusive, com inteligência, para minimizar riscos para policiais e a população?
São muitas perguntas, muitas delas, imagino, ficarão sem resposta. Enquanto isso, governadores como o próprio Cláudio Castro, se colocaram contra o pacote de combate à criminalidade enviado ao Congresso pelo governo federal.
E a população? Segue recolhendo seus mortos e chorando seus filhos, sem resposta.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
Fontes:
COELHO, Henrique. O que se sabe e o que falta esclarecer sobre a megaoperação nos complexos do alemão e penha. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/10/30/o-que-se-sabe-e-o-que-falta-esclarecer-sobre-a-megaoperacao-nos-complexos-do-alemao-e-penha.ghtml
O GLOBO. Saiba quem são os 4 policiais que morreram na operação mais letal da história do Rio de Janeiro. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/10/29/saiba-quem-sao-os-4-policiais-que-morreram-na-operacao-mais-letal-da-historia-do-rj.ghtml
O TEMPO. Mortos na megaoperação no Rio passam de 130, diz defensoria. Disponível em: https://www.otempo.com.br/brasil/2025/10/29/mortos-em-megaoperacao-no-rio-passam-de-130-diz-defensoria
