Por Marcos Ribeiro
Vivemos cercados de histórias. Elas estão em tudo: na propaganda de sabão em pó que promete uma infância mais feliz, no vídeo motivacional da marca que vende autoajuda corporativa, na sequência de postagens cuidadosamente editadas no Instagram de alguém que mal conhecemos. Tudo hoje é storytelling. Tudo é narrativa. Ou será que não?
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, uma das vozes mais contundentes da filosofia contemporânea, nos oferece uma provocação incômoda. Talvez estejamos diante da mais silenciosa e sofisticada crise cultural de nosso tempo, a crise da narração. Uma crise que não apenas nos afasta da arte de contar histórias, mas dissolve o sentido de quem somos. E o mais assustador: ela se disfarça de presença, de conexão, de proximidade.
Com olhar atento e verbo afiado, Han expõe o paradoxo cruel que nos cerca. A era da comunicação veloz, saturada de imagens, sons, frases de impacto é, na verdade, a era do esvaziamento narrativo. A avalanche de informações, o ritmo alucinado das redes, a obrigação de estar o tempo todo “atualizado” esmaga qualquer possibilidade de experiência profunda. Não há pausa. Não há silêncio. Não há escuta. Só há fluxo. Um fluxo que arrasta e dispersa, sem permitir ancoragem.
O filósofo lembra que a verdadeira narrativa, aquela que nasce da vida vivida, da escuta, da memória, da troca afetiva não sobrevive à lógica do consumo. Porque narrar, de fato, exige tempo. Exige subjetividade. Exige vulnerabilidade. Mas o storytelling que nos oferecem é apenas técnica. Uma moldura encantada para vender mais, engajar mais, distrair mais. Não há alma, só estratégia.
Walter Benjamin já havia nos alertado sobre isso, ao falar da perda da aura na obra de arte. Aquela centelha que habita o silêncio entre as palavras, que conecta o tempo do criador ao tempo do leitor ou ouvinte, se esvai quando tudo vira produto. A arte se torna reprodutível, repetível, empacotável. E com ela, perde-se o mistério. Perde-se o sentido. Perde-se o humano.
Han vai além. Denuncia que o storytelling contemporâneo é, na verdade, um instrumento de manipulação. Palavras são escolhidas a dedo não para iluminar a realidade, mas para moldá-la segundo interesses de mercado. A narrativa se torna mercadoria. E, com isso, perde sua função mais nobre de “ancorar a vida”.
A boa literatura, aquela que transforma, que comove, que nos coloca frente a frente com nossos abismos, não serve ao mercado. Ela resiste. E por isso mesmo, está sendo engolida. Em seu lugar, multiplicam-se conteúdos instantâneos, empacotados para nos entreter e nos manter distraídos. Somos alimentados por “histórias” que não nos pedem nada além de cliques. Não exigem reflexão, não pedem pausa, não convocam à mudança. São estímulos, não experiências.
Nesse processo, a subjetividade do sujeito contemporâneo é esmagada. O que se espera dele é que consuma, sorria e siga. Que publique. Que reaja. Que participe de uma encenação constante, na qual o “eu” é uma construção de vitrine. As redes sociais são o palco perfeito dessa tragédia: ali, todos “contam histórias”, mas ninguém escuta de verdade. Tudo é exposição. Tudo é consumo. Tudo é performance.
A crise da narração é também uma crise política. Porque onde não há narrativa verdadeira, não há espaço para debate, para escuta, para alteridade. Sem histórias que nos liguem ao outro, à memória, ao futuro, resta apenas o presente estéril, o agora compulsivo, o eterno zapping existencial. E nesse vazio, torna-se impossível imaginar outro mundo. Outro modo de vida. Outro caminho.
É nesse ponto que Han lança seu grito de resistência. E a resistência, paradoxalmente, é simples: ler ficção. Mergulhar de novo na literatura, nas histórias que insistem em dizer algo. Narrar é reexistir. Contar e escutar são atos políticos. São gestos de cuidado. De reconstrução.
Ao final de seu ensaio, o filósofo nos deixa com uma imagem poderosa. “Narrar é criar um novo começo”. E como é preciso recomeçar.
Ali, no silêncio de um livro, na voz trêmula de um avô que conta histórias ao neto, ou na lembrança sussurrada entre amigos, a verdadeira narrativa ainda resiste. E enquanto houver quem conte, e quem escute, talvez ainda não estejamos completamente perdidos.
E você, ainda escuta histórias? Ou está apenas deslizando telas?
