A frase “É a economia, estúpido”, de James Carville, serviu de mote para falar da goleada fenomenal que a diplomacia brasileira tem dado na surdina, com discrição e competência, como é próprio de diplomatas de carreira, em Eduardo Bolsonaro e no filhote de ditadura Paulo Figueiredo. Ambos, vendendo a ideia de que seriam os únicos com acesso aos canais de Washington, cavaram duros golpes na economia do Brasil por meio de tarifas impostas por Donald Trump, em uma tentativa frustrada de livrar Bolsonaro da cadeia em virtude da tentativa de golpe que o condenou e tem condenado vários de seus asseclas.
A economia continua sendo um ponto central, claro, já que os ataques mendigados pelo deputado federal (espantosamente ainda em exercício) atingiram justamente as exportações para os EUA com a imposição de uma tarifa da ordem de 50% pelo governo Trump, além de aplicar sanções que variam de suspensão de vistos de entrada de autoridades até a tal Lei Magnitsky sobre Alexandre de Moraes, sua esposa e a empresa da família. Obviamente, os grande prejudicados seriam o agronegócio (café, carne etc.) e o de exportação de minerais, setores econômicos que concentram grandes apoiadores do Bolsonaro-pai. Em seus devaneios de amores pelo imperialismo americano, desejando serem dominado com força por Trump, creio que os prejuízos não entraram nos cálculos dos fetiches coloniais da família.
Também não entrou na conta o fato de termos, hoje, um sindicalista no Planalto – e não um lambe-botas de imperialista que bate continência para a bandeira americana. Lula pode ter muitos defeitos – e quem acompanha política com seriedade sabe que ele os tem assim como o partido que ajudou a fundar. Mas, no caso, o fato de ter um egresso das greves do ABC, alguém acostumado a negociar com pesos desiguais sobre a mesa, fez com que o país mantivesse uma postura sóbria e soberana. “Não negociamos nossa democracia”, disse o presidente. E ele está certo.
O Brasil do século XXI não é mais o mesmo da primeira metade do século passado, quando dependíamos e muito da economia americana e uma taxação tão grande impactaria numa parcela gigante das nossas exportações. Até 2001 eles ocupavam 21% do nosso mercado internacional – hoje, apenas 12%. Isso, segundo a XP, impactaria em -0,15% do nosso PIB. Ou seja: nada que provocasse ranger de dentes e arrancar de cabelos em sinal de lamentação.
No micro, obviamente, impactaria setores que especializaram seus negócios nas exportações para o Tio Sam – e aqui, novamente, o governo entrou com planejamentos de subsídios necessários para a manutenção de empregos e negócios.
Então, pode-se dizer que o governo Lula agiu em 3 frentes: nos discursos e falas do presidente para o público interno retomando as bandeiras da soberania e do nacionalismo, longamente perdidas para a extrema direita; proteção para empresas em risco e a melhor parte, na minha opinião, deixar nossos diplomatas trabalharem capitaneados pelo chanceler Mauro Vieira e pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.
Confesso que tenho zero saudades dos tempos tenebrosos de Ernesto Araújo, o pseudo-chanceler que dizia que o melhor era sermos “páreas internacionais” agindo em total desacordo com nossa tradição diplomática. Só podia mesmo ser um egresso dos pesadelos do Itamaraty e para lá retornou.
O resultado do trabalho perito e discreto dos atuais representantes de Ruy Barbosa foi um encontro noticiado primeiramente como fortuito entre Lula e Trump nos corredores da ONU, mas, na verdade, duramente negociado, que resultou em um telefonema de meia hora entre ambos na semana seguinte e a troca de telefones pessoais. O que virá? Prematuro dizer.
Mas, filhotes de autocratas e ditadores choram e rangem os dentes e, se um dia, já chamei o Alckmin de Picolé de Chuchu, nem me lembro.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
Fontes
OLIVEIRA, Élida. Impacto do tarifaço, que já era pequeno para o PIB, ficou menor com lista de exclusão. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/economia/tarifaco-eua-brasil-pib-xp-impacto-menor/
