Por Jornalista Marcos Ribeiro
A leitura está morrendo? Essa é uma pergunta que tem deixado muitos educadores, pesquisadores e leitores inquietos. Em tempos de inteligência artificial, vídeos curtos e respostas rápidas, há quem acredite que o hábito de ler se tornou obsoleto. Mas a verdade é que, sem leitura, não há compreensão profunda do mundo, nem acesso crítico à informação. A leitura, ao contrário do que alguns imaginam, não é dispensável. E os dados da mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil são um alerta forte e direto, de que estamos perdendo leitores em ritmo preocupante.
De acordo com o levantamento realizado pelo Instituto Pró-Livro, o país perdeu, desde 2019, nada menos que 6,7 milhões de leitores. A estimativa de 100,1 milhões de leitores caiu para 93,4 milhões em 2024. Hoje, mais da metade da população brasileira (53%) se declara não leitora. Isto é, não leu sequer um livro, físico ou digital, nos últimos três meses. O número é assustador por si só, mas torna-se ainda mais grave diante do contexto de desinformação, polarização política e apagamento do pensamento crítico que vivemos.
A média de livros lidos por pessoa também caiu de forma significativa, de 4,95 livros por ano para 3,96. E não se trata de uma queda restrita a um grupo específico. Todas as faixas etárias, classes sociais e níveis de escolaridade foram afetados. A leitura, que deveria ser instrumento de emancipação, está sendo abandonada por falta de incentivo, ausência de políticas públicas consistentes e, muitas vezes, pela ideia equivocada de que tudo pode ser resolvido por um algoritmo.
É claro que a leitura não desapareceu da vida digital. As telas também são espaços de leitura, como já alertava o teórico Jay David Bolter nos anos 1990, ao falar do “novo letramento” exigido pelos ambientes eletrônicos. Mas ler no digital não significa necessariamente desenvolver a mesma profundidade de compreensão. A leitura hipertextual, em que se navega por links, fragmentos e saltos de informação, exige outras habilidades, e não substitui por completo a leitura linear e reflexiva dos livros.
Autores como Roger Chartier e Umberto Eco já alertavam para os impactos das transformações tecnológicas nas práticas de leitura e escrita. A invenção da imprensa, por exemplo, não apenas democratizou o acesso aos textos, mas também padronizou os formatos, estabilizou as versões e consolidou a ideia de autoria. Já o ambiente digital rompe com essa lógica, instaurando a multi-autoria, a constante atualização e a leitura fragmentada.
Se por um lado isso amplia as possibilidades de interpretação, por outro impõe novos desafios. Quem lê pouco, interpreta mal; quem interpreta mal, está mais suscetível à manipulação. E nesse ponto reside o maior risco, o de um país que deixa de ler é um país que perde sua capacidade de crítica, de debate e de construção democrática.
A boa notícia é que, mesmo diante da crise, ainda existem os leitores apaixonados, os que resistem, conectam, compartilham e inspiram. São eles os grandes responsáveis por manter viva a chama da leitura em tempos difíceis. São eles que mostram, todos os dias, que quem lê, de fato, entende o mundo. E quem não lê, inevitavelmente, acaba sendo entendido por ele.
