Violência contra mulheres não é novidade na sociedade brasileira. De acordo com as estatísticas do Atlas da Violência o aumento de feminicídios entre 2022 e 2023 foi de 2,5% mesmo que a taxa e homicídios gerais caísse. Outro dado importante é apresentado no Anuário Brasileiro de Segurança Pública que revela que 64,3% dos feminicídios ocorrem em casa.
Ou seja: a maioria desses atos acontece no silêncio do lar e não é filmado como os mais de 60 socos desferidos pelo ex-atleta Igor Cabral em sua, então, namorada, Juliana.
As dificuldades para se lidar com a violência contra a mulher se espalham em todas as camadas da sociedade. Vão desde o pernicioso discurso religioso que incentiva a esposa a “edificar seu lar” por meio de orações mesmo em face a agressões do marido em vez de buscar a polícia, até as dificuldades no acolhimento das vítimas em hospitais cujos profissionais muitas vezes não cumprem o dever de questionar os motivos de ferimentos suspeitos e reportar casos para a autoridade policial para maiores investigações. Falta rede de apoio. Falta tudo!
Junte-se o dado discurso com a ideia cristã de que a mulher deve ser submissa e tem-se um barril de pólvora que transforma as evangélicas no maior grupo dentre as mulheres que sofrem violência doméstica. Há alguns movimentos internos às religiões que vêm combatendo esse discurso, mas ele ainda é pronunciado, especialmente, entre as classes mais baixas, o que expõe ainda mais mulheres já vulneráveis socialmente.
Nesse contexto, não espanta que notícias tão horrendas quanto o ataque animalesco sofrido por Juliana no elevador sejam acompanhadas de perguntas absurdamente descabidas como: “O que será que ela fez para apanhar tanto?”; “ninguém bate à toa” e outras. Como se qualquer coisa que a mulher tivesse feito fosse funcionar como justificativa para uma tentativa de feminicídio tal o grau de naturalização da violência contra a mulher em nossa sociedade.
Acaba sendo natural tanto para quem bate, quanto para quem apanha, até para quem assiste. É preciso quebrar essa normalidade. Afortunadamente, muitos se revoltaram com a agressão de Igor mas o absurdo não pode estar apenas nos mais de 60 socos. Deve estar no grito, na ofensa, no empurrão e daí em diante. Mesmo na voz mansa que ofende, diminui e deprecia. É preciso tornar todo tipo de violência inaceitável, mas em especial, aquela que é praticada por pessoas de confiança, da família. Em sua maioria, companheiros ou ex-companheiros.
É preciso que o homem aprenda que a mulher não é sua propriedade. Que somos seres humanos autônomos – não a continuidade de sua posse ou de sua honra. Somos livres para iniciar ou finalizar relacionamentos e não há motivo que justifique a agressão. Sente ciúmes? Discipline-se emocionalmente. Aprenda a enxergar seus exageros emocionais e a controlá-los: você não é dono da sua namorada/esposa/ex para determinar o que ela veste, usa, como se comporta ou as amizades que mantém. A mulher quer terminar? Aceite o fim, vida que segue. Entenda que não é da sua conta o que ela faz ou com quem ela sai depois disso.
Você analisa que a mulher realmente é mau-caráter e não cumpre os acordos de monogamia feitos entre vocês ou age de maneira leviana, que não respeita o relacionamento? Separe-se e siga com sua vida em paz. Lembre-se: você é juiz sobre sua vida. Não é juiz e muito menos carrasco da vida das mulheres com quem se relaciona ou já se relacionou.
Na minha cabeça persiste um diálogo fictício muito interessante, que ressalta a importância da mudança de comportamento masculina.
O homem comum pergunta para a mulher, cheio de razão: “Se os homens não existissem, quem protegeria as mulheres?”
A mulher responde reflexiva: “Se os homens não existissem, as mulheres precisariam de proteção contra quem?”
Fontes:
CARINGE, Camila. Violência doméstica é prevalente entre evangélicas. In: Le Monde Diplomatique Brasil. Consultado em 05/08/2025. Disponível em: https://diplomatique.org.br/violencia-domestica-e-prevalente-entre-evangelicas/
FERREIRA, Luiz Cláudio. 61 socos no RN retrata a escalada da violência contra mulheres. Consultado em 05/08/2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-08/61-socos-caso-no-rn-retrata-escalada-da-violencia-contra-mulheres
