Outro dia estava indo a um sítio em Itaverava para estar com minha nora e sua família em uma tarde bem bucólica. Durante o carnaval, meu marido e eu somos do bloquinho do sossego e apenas saímos, se for o caso, para passeios tranquilos e onde tem lugar para nos sentar (e, para mim, deitar) – de preferência com wi-fi.
Estamos acostumados com o caminho para nossa cidade vizinha, uma vez que seguimos anos por essa estrada para participar de giras de Umbanda no sítio de meu padrinho, recentemente assassinado, cremos que por motivos políticos.
É uma estradinha estreita, cheia de curvas e buracos (obrigada, Zema!), o que a pode tornar bem perigosa.
Mas ela tem sua beleza. Seja observando as plantações, seja sentindo a fragrância de eucaliptos ou de esterco de vaca vindo das fazendas adjacentes, é uma pequena viagem muito agradável. Isso porque nem falei de um enorme cruzeiro postado ali por alguém de muita fé e que desejou expressá-la de maneira gigante. Sempre lembramos de saudar “Seu” Atotô quando por ele passamos, com muito respeito.
Gosto de fazer essa pequena viagem de vidros abertos deixando que as sensações invadam o conforto de nosso modelo popular.
É inegável o fato de que duas mortes nos acompanham no caminho – tanto a de meu padrinho, pelas lembranças, quanto da Fernanda. Até falei dela aqui. Lembro-me da Fefê sempre que vemos lírios de Oxum crescendo bonitos pelos brejos, com seus talos compridos e verdes e suas flores brancas e lindas.
Cheia de sensações causadas tanto pela estrada e suas adjacências, quanto pela saudade, vi quando passou por nós um carro preto de vidros fumês fechados – certamente de ar-condicionado ligado. É um conforto, claro. Especialmente nos dias mais quentes.
Mas não era o caso. A temperatura estava amena – e melhor do que a temperatura estavam as sensações.
Pus-me a pensar no que os viajantes apressados do carro ao lado – e num piscar de olhos, ao longe, estavam perdendo. Todos os cheiros trazidos pelo vento e a percepção leve do sol entre nuvens sobre a pele.
Lembrei-me das crianças e cães de apartamento que não conhecem sensações da natureza. Que ao pisar em grama sentem-se incomodados com o desconhecido. Que nunca pisaram em barro e que apenas conseguem apontar uma galinha se ela estiver morta, limpa e em pedaços, como compramos no mercado.
Quantos conhecimentos sensoriais perdidos, sequer tocados.
É claro que a natureza nos oferece abelhas e marimbondos além das flores. Mas conhecer a sensação macia das pétalas vale o risco.
Abramos mais nossas janelas, sejam as do carro, as de casa, do trabalho. Abramos e deixemos o mundo entrar.
Profa. Érica
