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Você é a favor do aborto?

7 de outubro de 2023
in Gerais
Você é a favor do aborto?
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Eu, não. E realmente, não acredito que ninguém seja – nem mesmo a mulher que precisa abortar por algum motivo, sejam os já garantidos por lei, sejam outros.

O aborto é uma violência no corpo feminino – nada semelhante a ir à praça tomar sorvete, como alguns querem fazer crer.

Ao longo dos meus 45 anos jamais conheci uma mulher sequer que usasse o aborto como forma de controle de natalidade em virtude de ele ser uma agressão ao corpo. Romper o colo, remover o feto, a placenta, geram hemorragia e contrações e dores como acontece em qualquer parto. O resultado são alguns dias ou semanas de desconforto e sangramento vaginal intenso.

Aborto não é e nem nunca foi brincadeira.

Porém é importante pensar esse assunto não como concordar ou não – não como pauta religiosa (vivemos em um Estado laico).

É importante pensar esse assunto como uma questão social e de saúde pública.

Ressalto que, por óbvio que seja, nenhuma única mulher no Brasil deve ser obrigada a abortar. Jamais. Isso ocorreu e, talvez ainda ocorra, em determinados países onde o controle de natalidade é feroz – mas não me imagino vivendo onde mulheres que queiram ter filhos e estejam grávidas sejam foçadas a eliminá-los.

Mas o abortamento é uma questão social, em primeiro lugar, porque é preciso deixar de enxergar mulheres como meras incubadoras. A mulher não se resume ao seu útero e ao que ele pode fazer – e jamais deve ser tratada segundo esse pensamento. Ela também não é uma cidadã de segunda classe, que não deve ter direito de decidir sobre quais procedimentos médicos seu corpo sofrerá – ou não. Não estamos vivendo no “Conto da aia” de Margaret Atwood e não podemos permitir que nossa sociedade se aproxime dessa distopia.

Ainda, o aborto é uma questão de saúde pública. Desde tempos imemoriais, mulheres abortam usando ervas, quando possuem esse conhecimento, objetos para abrir o colo do útero, por meio de exercícios exaustivos – mais modernamente, por meio de medicação etc., por vários motivos particulares. Nada, nenhuma lei, e nem ninguém conseguiu zerar o abortamento porque a vida da mulher, de uma maneira geral, nunca foi fácil o suficiente para simplesmente aceitar todos os filhos que a natureza lhe dá. Isso considerando-se aspectos psicológicos, financeiros, de moradia, empregabilidade etc.

Por isso, mulheres abortam. No Brasil cerca de 800mil por ano sendo que 200 mil procuram auxílio do SUS para tratar suas consequências. Estatisticamente, uma a cada cinco mulheres no Brasil com mais de 40 anos já fizeram um aborto: o que dá um total de 7,4 milhões de pessoas.

As pesquisas mostram que, no Brasil, a maior parte das mulheres que se utilizam desse recurso são negras, pobres e religiosas. Sim, cristãs (e mulheres e outros credos), mesmo quando suas religiões o proíbem, ainda abortam. Todas? Óbvio que não. Mas não se pode ignorar tais números fingindo que eles não existem e não impactam na saúde reprodutiva da mulher.

É um assunto que está para além da religião, já que nem todas pertencem a uma denominação exclusiva no Brasil e mesmo dentre as cristãs há aquelas que defendem o aborto, como o movimento Católicas Pelo Direito de Decidir. Elas são um exemplo pertinente de que, mesmo que o aborto não sirva para mim, eu não sou a dona do útero de outras mulheres para decidir por elas.

Aí entra uma decisão importante da ministra Rosa Weber, aposentada do Supremo, que fez questão de deixar seu voto já pautado: o aborto até a 12ª semana de gravidez deve ser descriminalizado – ou seja, nenhuma mulher que o fizer estará sujeita a ser presa.

Pessoalmente, esse é um limite que me satisfaz – porque o que não posso imaginar é o sofrimento do feto no ato de abortar. Porém esse sofrimento na forma de dor apenas estaria presente na 30ª semana de gestação, bem distante do tempo marcado por Rosa Weber.

O que também não me satisfaz de maneira alguma é saber que mulheres ricas fazem aborto seguro e mulheres pobres morrem ao tentarem sozinhas. O que não me satisfaz é ver mulheres colocando a própria vida em risco para, desesperadamente, abortarem. Ainda: o que não me satisfaz é o número de crianças abandonadas monetariamente, afetivamente e presencialmente por pais que batem no peito e dizem ser contra o aborto enquanto dão “uma banana” para os filhos que já fizeram. É muito fácil ser contra o aborto assim.

E falando de aborto, algo a ser decidido em legislação federal ou tribunais superiores, surpreendi-me com os vereadores de nossa cidade discutindo o assunto na reunião na Câmara na última terça. Eles não têm poder de decidir sobre isso.

As perguntas que me faço são: estão faltando problemas na nossa cidade? Está tudo resolvido? Temos ônibus a tempo e a hora? Esgoto 100% tratado? Rios limpos? Ruas asfaltadas? Hospitais funcionando? População sorridente e feliz?

Esses são os alvos do trabalho do vereador com sua fiscalização do executivo – não discussões infrutíferas sobre temas sobre os quais não decidem.

Ou será que querem fazer “bonito” já pensando na eleição do ano que vem?

Fontes:

Gonçalves, N.; Rebelo, S.; Tavares, I.. Dor Fetal: mecanismos neurobiológicos e consequências. https://www.actamedicaportuguesa.com/revista/index.php/amp/article/download/637/321/1187#:~:text=Na%20tentativa%20de%20estabelecer%20se,e%20funcional%20para%20sentir%20dor. 

Profa. Érica
@ProfaEricaCL

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