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Duas Marias – como a de Milton e Fernando

16 de setembro de 2023
in Gerais
Duas Marias – como a de Milton e Fernando
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Essa semana precisei recorrer ao serviço eventual de uma pessoa para dar uma limpeza “por alto” na minha casa na falta da faxineira habitual, que estava, mais uma vez lutando com os problemas de ordem psicológica de um dos filhos.

Esse texto é sobre políticas públicas e essas duas Marias, que carregam na pele a marca e a cor que, hoje, ainda, infelizmente, refletem a parcela da sociedade que mais sofre – “que não vive, apenas aguenta”.

A Maria habitual, a faxineira, tem um filho, jovem adulto, que já passou da terceira tentativa de suicídio. Todas as vezes ele passou pelo Pronto Socorro, foi atendido, mais de uma vez quase morto. Encaminhado ao CAPS todas as vezes, ficou o mínimo de tempo permitido na internação e passou a frequentar os serviços diurnos. Uma vez foi encaminhado ao Hospital Psiquiátrico de Barbacena.

A grande questão é que esse menino, esse rapaz, esse filho em profundo sofrimento, tentou novamente o suicídio – e essa Maria, uma diarista, interrompe seu trabalho para socorrer o fruto de seu ventre e com ele sofre intensamente pela incerteza.

Está claro que, por melhores que sejam os serviços do CAPS, são insuficientes para suprir o que necessita o rapaz. Claro que jamais falarei contra os profissionais que lá trabalham: são acolhedores e lidam com os piores sentimentos e sofrimentos que uma sociedade como a nossa produz quando esmaga seres humanos.

Mas ele precisa de mais – ou teremos mais uma Maria chorando ao lado do caixão de alguém que se foi porque o Estado falhou, já que a saúde é um direito e ela inclui a saúde mental. Em pleno “Setembro Amarelo”!

Pela falta da primeira Maria, encalacrada com aulas para preparar e cheia de compromissos já agendados para esse dia em virtude da folga dos serviços domésticos, encontrei a segunda Maria no grupo do bairro pedindo que viesse apenas lavar vasilhas, banheiro e dar uma “limpada por cima” na casa.

Ela me retornou depois da mensagem dizendo que precisava apenas ver se a cunhada poderia olhar sua criança de dois aninhos. Disse que poderia trazê-lo, seu Pequeno Príncipe atentado, falador e bagunceirinho: como toda criança saudável e esperta deve ser.

Entre a preparação de aula e uma passada de olho no Pequeno Príncipe, ainda consegui ouvir um pouco da vida dessa outra Maria. Ela tinha dois filhos, o marido encarcerado, a sogra recém-falecida, morava em uma casa invadida, não conseguia vaga na creche para o Pequeno e precisava viver de fazer bicos, como o que se propôs a fazer por mim.

Quando ela chegou, barganhei um pouco o preço, com meu hábito antigo de tentar o melhor valor. Vi que ela aceitaria – mas algo em seu olhar me convenceu que era a coisa errada a fazer e acabei pagando um tiquinho a mais do que ela pediu, em vez de menos que o valor solicitado.

Ao sair da minha casa, ela agradeceu muito, disse que pelos filhos faz tudo, que muita gente não aceita que diarista leve a criança, outros têm preconceito quando descobrem que o marido se encontra encarcerado. Ou seja, ela ainda divide a pena com o esposo, como se presa também estivesse – com o dado de que precisa colocar comida no prato dos filhos todos os dias.

Essa Maria não consegue emprego fixo porque não há creche – a do nosso bairro, inconclusa há mais de dez anos segundo meus cálculos, teve sua construção reiniciada pela milésima vez em ano pré-eleitoral. Quem sabe dessa vez sai?

Porém, essa linda, brava e forte Maria não pode esperar e ao sair da minha casa foi fazer outro bico puxando entulho com pá para colocar na caçamba em uma construção próxima. Exatamente. Bater pá como muitos homens, em média mais fortes que nós, mulheres, não aguentam, para alimentar os filhos sozinha. Ela e Deus. Porque esperar pelas políticas públicas não coloca comida nas bocas de sua pequena família.

Penso aqui no quanto a falta de políticas públicas exaurem nossas Marias, tirando delas o sorriso e esmagando-as de maneira que somente “quem tem fé na vida” pode aguentar.

Um filho doente e as necessidades de filhos pequenos são a prioridade dessas Marias – prioridades que elas não podem atender porque não há quem as ajude.

Isso me esmaga e entristece.

Durmo e acordo com essas e tantas Marias na cabeça praguejando contra o sistema tão brutal que as brutaliza mas não embrutece porque permanecem lutadoras e cheias de amor pelas proles e pela vida.

Seguem cansadas, exaustas, mas seguem. A verdadeira força da mulher que inspira canções.

Mas que não deveriam ser obrigadas as serem tão fortes. Ninguém deveria ter que mostrar força o tempo todo, todo o tempo.

Esse texto é um grito por elas. Por melhores condições de tratamento psiquiátrico, inclusive com internação pelo tempo necessário; por creches, saúde infantil, educação integral. Por todas as políticas públicas que tirariam essas Marias da exaustão física e mental e as colocaria entre aquelas que trabalham, sim – mas que também podem descansar porque merecem a dignidade dos justos.

 

UniFASar

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