Tenho uma família bem grande – e como é comum em famílias assim, algumas pessoas são LGBTQIA+.
Fico observando a maneira como o amor (ou o ódio) age nesses casos – porque na família também há uma maioria de militares, conservadores, beatas/beatos católicos e evangélicos de várias vertentes.
Acompanhei várias saídas de armário ao longo dos anos feitas das melhores e piores maneiras possíveis; recebidas pessimamente ou com acolhimento. Já vi de tudo.
Até mesmo mãe evangélica dizendo para a filha que preferiria que ela tivesse uma doença terminal a ser lésbica. Imagino que porque de doença se cuida e haveria ali a oportunidade de demonstrar abnegação zelando pelo bem-estar da filha contando com a compaixão de todos. Já ser homossexual não despertaria nesse e nem em muitos corações a compaixão necessária, nem a compreensão de que cada um é quem é – e pronto.
Mas de todos os casos nessa família enorme, um se destacou. Adulto, vinte e poucos anos, formado, cuidando da própria vida, se apaixona por outro homem, mesmo já tendo vivido experiências com mulheres. Sabe o tal do B em lgBtquia+, aquele mesmo que não significa Beyoncé?
Então…
O relacionamento foi ficando sério ao ponto de o namorado ser apresentado aos pais e irmãos – mas era mantido secreto da avó, beata católica. Daquelas que reza o terço todos os dias e tem a TV permanentemente ligada na missa.
Mas o dia chegou e o netinho querido foi falar com a vovó, que sempre perguntava das namoradas, que tinha um namorado.
Foi um choque? Claro. Para uma pessoa tão tradicional receber esse tipo de notícia nunca será banal.
O “Ah, não! Não me venha com essa moda!” – foi quase inevitável. Mas a conversa não descambou para ofensas e permaneceu como deve ser: tranquila, com as duas pessoas buscando o entendimento de um ponto importante na vida de uma delas que precisava ser compartilhada com a avó por puro amor. Afinal, como esconder o amor, o namorado, de quem se ama tanto, a avó?
Passado o primeiro choque, alguns dias depois, observei a avó conversando com um de seus filhos, tio do rapaz. E para minha surpresa a fala dela começou de maneira esperada e terminou superando minhas expectativas.
“Então, o fulaninho falou que é esse negócio de gay. Eu fiquei tão preocupada…” – essa era a parte esperada. Estava já aguardando algum comentário minimamente preconceituoso, mas para minha surpresa o que emendou a frase foi – “preocupada demais porque a gente vê no jornal que tem pessoas que atacam eles e batem neles só porque eles são assim”.
E ali, mais uma vez na vida e esperando que não seja a última, me deparei com o amor puro, límpido e transparente, em uma de suas inúmeras formas e expressões.
Nesse dia, a cara do amor era uma avó beata, extremamente católica, que havia acabado de saber há poucos dias que um de seus netos era gay e estava com medo de que seu ele encontrasse o ódio que ela jamais lhe desejaria.
Porque por ele, pelos demais netos, pelos filhos o que ela sentia era isso: amor. E só.
Vendo essa preocupação tão linda – e tragicamente verdadeira – eu me pergunto: por que não é sempre assim? Por que sempre haverá quem prefira o ódio?
O amor, como demonstra o medo da avó, nem sempre traz bons sentimentos. Sentir medo é péssimo. Entretanto, mesmo que aconteça isso ele aquece a alma. Esquenta o coração.
Já o ódio é frio sempre – gela o Espírito e o corpo. Causa calafrios.
Meu desejo depois de novamente ver a face do amor tendo já conhecido a face do ódio é que o primeiro ache cada vez mais espaço e que inunde corações cada vez menos gelados. Justamente porque atitudes como a dessa avó me relembram que independentemente de crenças pessoais, “o amor nunca falha”. (1Coríntios 13: 8).
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
