É isso mesmo: de alguma maneira, Merlin, meu gatão de oito anos, fez um acordo com a Morgana, recém-chegada de 5 meses.
O Merlico tem um banheirinho de gatos – aquele fechadinho por cima, igual a uma casinha, onde ele entra para fazer suas necessidades. Quando a Momô chegou, para evitar atritos, colocamos uma caixinha extra com areia do lado do banheirinho.
Quem tem gatinhos sabe como eles são limpinhos e têm verdadeira ojeriza aos ambientes insalubres. Ou seja, o banheirinho tem que estar impecável, sendo limpo diariamente, se não quisermos encontrar xixi em locais indevidos.
E mais: aqui em casa é assim – temos todas as janelas teladas. Merlin cresceu sem saber pular muros. Ele não tem interesse por sair de casa. Estamos educando e acostumando Morgana da mesma forma. Ela até sai no quintal junto ao Merlin, mas jamais sozinha, porque filhote espoleta que é, capaz de ensinar o irmão mais velho a fugir para a rua, se se interessar por algum bichinho que esteja no alto.
E ela se interessa. Por todos os bichinhos, bolinhas de papel, torneiras, armários. Sua última arte é subir no local mais alto do guarda-roupas, deitar sobre as toalhas e ficar nos encarando lá de cima. Como é pretinha (com alguns rajados amarelados) já até esquecemos de colocá-la para fora do quarto, disfarçada que estava entre os panos, quando apagamos a luz para dormir.
Se eles mantêm o que nós chamamos de diálogo, eu não sei dizer. O que sei é que fizeram um acordo que cumprem em quase 100% do tempo – que ninguém é perfeito.
O banheirinho fechado ficou para o cocô – a caixinha de areia ficou para o xixi. Meu marido, que em casa cuida de nossos animais, é o encarregado da limpeza do canil e dos banheiros de gato: foi ele quem primeiro percebeu que uma linha clara havia sido traçada na convivência entre os dois felinos da casa, em prol da limpeza e asseio dos dois.
Passamos a observar e não houve dúvida. Não sei se com firma reconhecida em cartório ou com outras formalidades, mas é oficial a separação das necessidades fisiológicas felinas aqui em casa.
O que me faz pensar nas relações humanas. Dois animais que se comunicam, sim, mas não com a completude da fala humana, conseguiram, sem o auxílio da linguagem complexa, chegar a um acordo importante e de grande impacto na vida de ambos, mantendo a ordem no ambiente comum.
E a grande pergunta é: por que nós, humanos, que nos autodeclaramos, seja a epítome da evolução da terra no campo da inteligência, seja a imagem de Deus, o Verbo, não temos a mesma facilidade de negociar acordos com nossos semelhantes?
Por que para nós, que temos idiomas complexos, acordos para a paz, a negociação para o bem comum, seja em relacionamentos interpessoais na família, no trabalho – seja entre países, são tão difíceis de alcançar?
Muito mais difíceis do que um acordo feito entre dois gatos, de gerações diferentes, que se viram, de repente, na convivência um do outro e tiveram que se arranjar para dar certo e ficar confortável para todo mundo?
É absolutamente desconfortável para mim, enquanto parte da espécie humana, observar que, no sentido da comunicação e boa convivência, parecemos ter evoluído menos que outros habitantes da mesma terra.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
