Há algumas semanas chegou o momento de ter aquela conversa com meu filho. Sobre sexo? Não. Essa já tivemos décadas atrás.
Quando ele tinha uns 9 anos de idade, eu me lembro de ter assistido a um episódio de Law and Order: SVU, tipo de série que adoro até hoje: investigação policial, nesse caso específico sobre abusos sexuais. Ele brincava para lá e para cá. Não imaginei que estivesse prestando atenção em algumas coisas até no outro dia, quando eu o levava para a escola, e ele me sapeca sem dó: “Mãe, o que é sexo oral?”
Foi tão traumatizante que eu me lembro exatamente onde estava quando esse petardo me atingiu. Lembro do gelo no estômago e da pane cerebral de alguns segundos.
Porém, após pensar um tiquinho no que falar, consegui responder com clareza e de maneira apropriada à idade: “É quando pessoas adultas beijam as partes íntimas umas das outras”. Inclusive, senti-me muito esperta pensando nessa resposta tão rapidamente – os pais e mães sabem a dificuldade de manejar conteúdo e idade quando certas perguntinhas pipocam.
Mas aqui em casa sempre nos preocupamos com assédio e violência sexual, por isso, ensinamos desde cedo nosso filho como se proteger de predadores, identificando e nos contando qualquer coisa suspeita, ao mesmo tempo mantendo seu conhecimento sobre seu próprio corpo em dia assim como sua relação com sua própria sexualidade saudável.
Nudez, sexo, sentimentos são coisas que em nosso núcleo familiar sempre foram tratadas com normalidade e respeito com informações compreensíveis para cada ciclo de crescimento procurando manter a verdade e desdobrá-la segundo a necessidade e a curiosidade dele.
Quero crer que acertamos mais do que erramos, já que hoje ele é um homem de 24 anos, que compartilha conosco o que acha que devemos saber, compreende nossas preocupações (após uma adolescência contestatória) e nos escuta quando temos algo importante a dizer.
A verdade é que não importa quão adultos sejam seus filhos, sempre haverá conversas necessárias e importantes sobre sexo, dinheiro, bebidas alcoólicas e drogas ilícitas, sentimentos. Enfim. Sobre coisas que realmente importam na vida real, afinal, queremos nossas crias preparadas para o mundo e não vivendo eternamente debaixo de nossas asas.
Algumas semanas atrás tivemos uma dessas conversas. Lembro-me que estava lavando vasilhas quando o chamei para perguntar sobre namoros, sobre prevenção de gravidez e ISTs e sobre sentimentos.
Comentei que todos devemos ter um padrão claro na nossa mente quando vamos escolher nossos parceiros, porque aos 24 anos já se começa a pensar em namoros mais sérios e em novos passos nos relacionamentos.
Disse-lhe então que a melhor frase a se ter em mente ao escolher uma parceira é: “alguém que você admire profundamente as qualidades e que consiga conviver com os defeitos – e ela deve sentir o mesmo por você”.
Há relacionamento que sobrevive bem sem amor – se houver amizade. Não é algo que eu deseje, mas existe. Mas não há relacionamento que dure, em que os problemas possam ser resolvidos por meio de conversas, sem admiração recíproca, sem que aquela pessoa faça seus olhos brilharem com suas qualidades e que sinta o mesmo por você.
Perguntas importantes na medida em que o relacionamento se desenvolve: você quer ter filhos? Como se enxerga no mercado de trabalho? Quanto valoriza o relacionamento estável e o casamento (se estiverem nos planos)?
E observar atentamente como a pessoa lida com seu próprio dinheiro, com sua preparação profissional.
Como a pessoa em questão trata sua própria família? Sendo uma família dentro da normalidade (o que exclui narcisistas e abusadores), há boa convivência?
Sendo que boa convivência não quer dizer convivência perfeita: porque isso não existe. Mas há amor e respeito no núcleo familiar? As contendas que, porventura existam, são justificadas se analisadas com cuidado e imparcialidade?
Por exemplo, entre irmãos que não conversam, o que houve? Abuso, roubo, deslealdade, desrespeito profundo da outra parte? Se não houve nada grave, mas percebe-se que é uma família que não aprendeu a valorizar a união e o amor, seria a outra pessoa uma boa parceira de vida?
Foi uma longa conversa e fiquei muito feliz em perceber que o diálogo correu fluido e contou com toda a atenção do meu filho, com o pai sempre sendo o alívio cômico da seriedade da mãe. É assim que nossa família trata as conversas sérias: eu sisuda, professoral, explicativa – e o pai oscilando entre tiradas absurdas e engraçadas que aliviam o momento ou dando uma opinião conciliadora e importante.
Como mãe, fico feliz e orgulhosa de ver o homem que estou deixando como herança da minha passagem no mundo. É minha obra mais importante. Melhor e mais bem feita que qualquer dos meus livros ou qualquer outra coisa que eu tenha produzido. Fruto de um núcleo familiar que tem seus defeitos, suas brigas, mas se respeita e se ama incondicionalmente.
E, sim. Apesar de querer os netos, quero mesmo é esperar alguns anos até que isso aconteça porque é cedo demais considerando-se a geração dele. Mas nem tanto assim porque meu marido e eu queremos ter forças para carregar no colo a próxima geração, se ela for existir.
Já que nem isso é obrigação.
Temos todas essas conversas normalmente, como parte de nosso convívio familiar e acho isso fantástico. Já falamos também sobre bebidas e sexo. Conto para vocês um outro dia.
Por que falamos tanto de tantos assuntos sensíveis com alguém já adulto? Porque educação é assim: para a vida toda. E preocupação de bons pais também.
Nota: a foto, que amo e escolhi para ilustrar a crônica, é a que usamos no nosso grupo de família do WhatsApp.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
