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Homens, mulheres, poder e dinheiro

25 de junho de 2023
in Gerais
Homens, mulheres, poder e dinheiro
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Nos últimos anos, temos visto nos noticiários a mistura perigosa para eles mesmos e para as mulheres que se tornam homens com poder, status e dinheiro. É uma lista infinita que vai de atores a produtores de Hollywood (Armie Hammer, Harvey Weinstein), atores brasileiros (José Dumont, José Mayer), cientistas renomados (Octávio Mateus, paleontólogo português), príncipes ingleses (Andrew Windsor), pessoas do mercado financeiro (Jeffrey Epstein), políticos (Donald Trump), jogadores e técnicos de futebol (Cuca, Bruno, Robinho, Daniel Alves) – isso para falar apenas dos que estiveram nos noticiários de maneira mais ampla pensando somente nos abusadores – não nos envolvidos em escândalos sexuais por adultério, como Bill Clinton.

Recentemente, temos acompanhado bilionários perdidos no fundo do Atlântico em um submersível na tentativa de visitar os destroços do Titanic. As apurações jornalísticas demonstraram que o aparelho não era licenciado e nem vistoriado por nenhuma agência de controle – o que constava do contrato assinado pelos clientes dispostos a pagar mais de um milhão de reais admitindo risco de morte. Ainda, um ex-funcionário em 2018 saiu e denunciou falhas graves na engenharia do aparelho que tornariam as viagens perigosas.

Faz-nos pensar em quanto o poder leva alguns homens a comportamentos temerários para si mesmos buscando aventuras perigosas – ou os torna abusadores de mulheres, muitas desde meninas, como Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, e seu sucessor, Saul. Ou o príncipe Andrew e outros homens de igual poder e status, participantes de uma rede de exploração de mulheres liderada por Jeffrey Epstein.

Os últimos áudios de Robinho liberados na imprensa, condenado por estupro coletivo, assim como o treinador Cuca, chamam a atenção para o desprezo para com o corpo feminino vulnerável, no caso, a mulher estava embriagada. Esse corpo não é digno de proteção – ele é, sim, passível de abusos do tipo colocar o pênis em sua boca e ainda dizer que isso não é transar, como se isso, de alguma forma, desculpasse seus atos de estuprador. “Ela estava bêbada. Nem sabe quem sou”. Essa foi a fala do jogador que, em seu Instagram, se identifica como “seguidor de Cristo, casado e pai”.

Falando em seguidores de Cristo e outros religiosos, como esquecer de João de Deus abusador contumaz de meninas e mulheres, dos escândalos de pedofilia da Igreja Católica ou dos pastores Joel Miranda e Fernando Aparecido que estupraram, queimaram vivo e ocultaram o cadáver de Lucas Terra de apenas 14 anos de idade.

Não é o momento de parar e se perguntar de onde vem essa imprudência e violência a partir do momento em que determinados homens conseguem status, poder ou dinheiro – ainda mais pronunciado quando tais são possuidores dos 3 ao mesmo tempo?

Não é o momento de pensar essa masculinidade que enxerga a mulher como posse o que a expõe a crimes que vão de espancamentos, estupros até o feminicídio, que é quando a mulher é morta pelo simples fato de seu gênero? E aqui, sendo justa, é preciso dizer: para o cometimento de tais crimes nem se precisa de status, poder ou dinheiro, já que se encontra em todas as classes sociais em números alarmantes.

É fato que o ocidente eurocêntrico subalternizou a mulher, despiu-a de quaisquer poderes sobre seu próprio corpo, decisões e dignidade tendo por base interpretações da Bíblia que tornaram a mulher posse de seu pai ou marido. Por séculos fomos consideradas menos aptas, menos inteligentes, menos dignas de respeito amor, diminuídas à mera condição de reprodutoras – ao mesmo tempo, mais malignas e pecadoras por supostamente termos introduzido o pecado no mundo, o que é refletido pela disparidade de números entre vítimas da inquisição: muito mais mulheres do que homens.

Direitos femininos são discussões antigas, mas que apenas desde o século XIX passaram a ganhar força garantindo-nos coisas básicas como direito ao voto, a uma conta bancária, ao trabalho e viagens (sem autorização de pai ou marido), ao divórcio – ou até a jogar futebol, proibido por lei para nós junto a outros esportes considerados inadequados para nossa compleição até a década de 80. Sem esquecer das mulheres negras que seguem, no feminismo interseccional, lutando não pelo trabalho – esse já é delas desde a escravidão – mas por algo ainda mais profundo: pelo reconhecimento de seu status de seres humanos dignos de tudo o que isso possa significar.

No Brasil, é importante dizer que a maioria das mulheres presentes em nosso território ao longo de cerca de 400 anos eram as escravizadas consideradas corpos disponíveis para o abuso de seus “senhores” que, não raro, vendiam os próprios filhos, frutos desses estupros. Isso sem mencionar que expunha as negras aos desmandos das “senhoras” enciumadas, que buscavam castigar e desfigurar seus corpos, como se a violência sofrida por parte do escravizador fosse culpa dos dotes físicos da vítima.

Sim. O abuso e a posse de nossos corpos são históricos e encontram-se entranhados no imaginário masculino sob a forma do tão falado machismo – que maltrata não apenas a nós, mulheres, mas aos próprios homens que se veem envoltos em comportamentos temerários em nome de “provar masculinidade”.

É o momento de parar e pensar. De pensar e mudar.

Não pelo bem apenas das mulheres, mas de todos. Quanto mais justa e saudável para todas as pessoas, mais avançada em segurança social e direitos amplos de proteção para cidadãos torna-se uma sociedade.

Não é exatamente isso que queremos?

Profa. Érica
@ProfaEricaCL

UniFASar

ERM



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