Dessa vez, na escola, a ameaçada fui eu.
Sim, um aluno de 16 anos ameaçou dar tiro no primo de uma aluna de 13, da mesma sala que ele. Ao chamar sua atenção, a ameaça de “resolver da melhor maneira possível” passou para mim. Ao ser informado de que eu chamaria a polícia se fosse uma ameaça, ainda ouvi: “Polícia não resolve nada, não.” – e a repetição da intimidação.
Fiz o que acho correto e direito. Acionei as autoridades, que prontamente acorreram à escola. Fomos todos, eu, diretora, vice, aluno, responsável, parar na delegacia, queixa registrada e reapresentada.
Porém, várias coisas chamam a atenção nessa história.
Primeiramente, um aluno tão fora de faixa, em uma sala de oitavo ano, em uma escola que vai apenas até o nono. Secretarias de educação deveriam ter planos para lidar com alunos assim, dirigindo-os para o EJA ou similares, de forma a permitir não apenas a recuperação do tempo perdido, mas também para garantir a adequação da pessoa ao ambiente.
Imagine em um ambiente de crianças de 11 a 14 anos um adolescente que é capaz de ameaçar de morte familiares de colegas e de levar essa ameaça até a professora, uma autoridade na sala. Imagine a interação de uma pessoa assim com os demais estudantes.
E veja: eu não fui a primeira a ser intimidada por ele. Alguns dias antes do acontecido comigo, a coordenadora da escola disse com muita clareza que havia ficado com medo dele devido a coisas que disse a ela.
É uma inadequação total que não passa despercebida por ninguém – mas que não tem política pública alguma de ajustamento. Ao menos, na escola em que trabalho, essa política, se existe, não chegou.
Outro dado interessante: eu, professora, dentro de uma escola pública de Congonhas, fui ameaçada e intimidada por um aluno ao ponto de sentir a necessidade de chamar a polícia.
Pergunto: alguém da secretaria de educação se manifestou? Enviou quem pudesse nos dar suporte ao simplesmente nos acompanhar nos trâmites legais?
Não. Ninguém. Nem uma mensagem sequer de apoio.
Ao retornar à escola, todos cansados e com fome, pouco mais do que meio-dia, tendo estado na delegacia desde cerca de 8 da manhã, sou informada de que não há previsão legal para que eu seja dispensada do restante do dia de trabalho. Depois de sofrer uma violência – porque ameaça também é violência – eu tinha as seguintes opções: cumprir meu horário até às 17h; ir embora tendo que pagar o horário ou ter o desconto no salário; arrumar um atestado médico para me dispensar.
Isso na cidade de Congonhas, onde somos punidos tanto no salário quanto na progressão da carreira quando damos atestados médicos.
Vejam vocês o nível do absurdo, do descaso e da falta de reconhecimento.
Nesse momento desabei. Chorei muito enquanto tentava arrumar um médico para me atender pela crise de ansiedade desencadeada por toda a situação.
Não consegui. Lembrei-me do posto de saúde do bairro para o qual liguei e onde fui acolhida com muita gentileza pelas profissionais. Em meia hora estava com o atestado em mãos e pude ir para casa descansar.
Essa situação escancara a que ponto chega a desvalorização da educação vista no trato comigo, uma professora que sofreu violência em seu ambiente de trabalho, durante uma aula, mas que não tem a garantia sequer de algumas horas para ir para casa se cuidar e se acalmar.
Imagine enfrentar 5 horários de aula depois disso.
Quer saber mais? O aluno recebeu uma suspensão de apenas dois dias. Não será transferido de escola e quando eu retornar estará lá novamente.
Dá um desânimo profundo. Ser professor nunca foi fácil – mas ultimamente tem se tornado impossível.
Nota: agradeço profundamente o tratamento humanizado da polícia militar e da polícia civil atuantes em Congonhas. Trataram a mim com dignidade e respeito. Agradeço também à UBS do bairro da escola: vocês foram gentis e acolhedoras. Eu amo ver serviço público atendendo ao cidadão como merece – e nesse dia em que necessitei, vocês foram maravilhosos!
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
