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Andanças do Tiradentes

21 de abril de 2023
in Gerais
Andanças do Tiradentes

Monumento a Tiradentes em Ouro Preto

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Quando falamos de Inconfidência Mineira, a primeira pessoa que nos vem à mente é o alferes Tiradentes, aquele que foi sentenciado com a morte em forca, teve seu corpo esquartejado e exposto pelos pontos estratégicos do Caminho Novo ou Estrada Real, sendo que a cabeça ficaria em Vila Rica – atual Ouro Preto. Vale lembrar que a pena capital do alferes foi a única que se manteve, os demais conjurados conseguiram a graça da rainha, Dona Maria I, para mudar seus destinos, ao invés da forca receberam as penas de serem expulsos do Brasil, como também perderam seus bens e deram o desgosto da vergonha pública aos seus amigos e familiares.

Por ordem da Coroa Portuguesa, obedecida piamente, as pernas ou quartos inferiores do alferes Tiradentes foram expostas nas terras Carijós, a recém Real Vila de Queluz (de Minas), de modo horrendo e público, pregadas em lugares visíveis às margens do Caminho Novo, sendo a esquerda nas proximidades da Estalagem das Bananeiras, em lugar incerto nas Bandeirinhas, para que todos os viajantes da Estrada Real vissem e soubessem do poder de repressão ao alferes. Já a perna direita foi fixada no tronco da frondosa gameleira, nas terras conhecidas por Varginha, isto porque na Estalagem do João da Costa Rodrigues, Tiradentes brindou em “cálice de madeira” a morte da rainha. Não suficiente, a cabeça disforme do sentenciado teve a salmoura, que a conservava, renovada em via pública, sob os olhares curiosos dos moradores do antigo arraial de Carijós.

Contar a história da Inconfidência sempre gera debates, pois é um assunto polêmico, controverso e cheio de suposições, que se ampliam a cada lançamento literário sobre o tema, injetando mais dados sobre os conjurados, seus motivos, suas virtudes e desvios. Com alguns pesquisadores podemos encontrar a busca pela defesa das causas dos inconfidentes, elevando-os a heróis nacionais, descrevendo-os como homens que se dedicaram ao alcance da liberdade para todos os brasileiros, elogiando seus discursos e colocando brilho em cada centímetro onde tenham pisado, e se não pisaram, passaram perto.

Dados históricos demonstram que o movimento dos inconfidentes não foi somente em Vila Rica, São João del Rei e Rio de Janeiro. Alcançou interessados e apoiadores em centenas de outros lugares, dentro e fora da capitania mineira, expandindo suas insatisfações diante do sistema colonial português, apresentando outra forma de dirigir o país, com participação política dos “homens bons”, mantendo a ordem social, inclusive o trabalho escravo. A liberdade defendida por eles não era para todos os brasileiros, ela escolhia a cor, a formação, a crença e a moradia de quem seria alcançado.

Quando as prisões dos envolvidos aconteceram, houve um bom número de moradores do antigo arraial dos Carijós e de seus distritos que foram denunciados, algo em torno de dezesseis nomes foram apresentados nos autos da investigação – a Devassa, eles e elas viviam de suas fazendas e roças, das minerações, dos comércios, do serviço militar e das funções religiosas. Eram frequentadores do Caminho Novo, tinham laços de parentesco e amizade uns com os outros, participavam das cerimônias religiosas com também dos balcões dos comércios de “secos e molhados” esparramados nas vilas e cidades coloniais. Foram essas as informações que os condenaram durante os depoimentos colhidos na Devassa, onde todos se declaravam como ouvintes daquelas ideias de rebelião, ora por um parente que esteve no batizado de seu filho, ora por um mensageiro que levava mais planos para o grupo secreto.

Nos autos encontramos alguns nomes de moradores ou de quem tinha vivência nas terras Carijós, dentre eles o Padre Fajardo que hospedou Vitoriano Veloso em sua residência que hoje é o Centro Cultural Solar do Barão de Suaçuí. Também podemos falar do morador da Fazenda Paraopeba, Alvarenga Peixoto, que hospedou o amigo Francisco Lopes, eles assistiram missa juntos sem saber que esse “amigo” o denunciaria ao governador pelas ideias subversivas.

Cada envolvido na Inconfidência Mineira teve seus motivos pessoais para estar nesse projeto, ainda que ligados a um ideal coletivo interessante à elite mineira, mas que pretendiam tornar Minas Gerais uma república no modelo iluminista, com presidente eleito, juízes imparciais e leais às leis que estariam em um documento novo para a nação – uma constituição. Tudo isso seria perfeito, se não fosse um detalhe: era crime contra a Coroa Portuguesa, que naquele momento, final do século XVIII, arrancava violentamente as últimas pepitas de ouro das minas, golpeava os brasileiros com uma carga tributária cruel e impedia o desenvolvimento da mineração de ferro e de indústrias nas terras coloniais.

As andanças do alferes Tiradentes o fizeram conhecido na Estrada Real, a ponto de suas pernas descansarem à sombra do caminho, para uma eternidade histórica, revisitada por estudiosos, levantando ainda hoje a discussão sobre liberdade e democracia do povo brasileiro.

 

Profa. Mauricéia Maia
Historiadora
Mestranda em Ensino de História/UFU

UniFASar

ERM



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