Estamos em período de festas em que, normalmente, as pessoas proferem desejos auspiciosos umas para as outras sempre com votos de felicidades. É o tempo de gastar o 13º salário comprando os brinquedos das crianças ou algumas coisas necessárias que foram postergadas por não caberem no orçamento regular ou outros supérfluos de várias estirpes. Tudo com OU mesmo porque para nós, proletários, é assim: tem que escolher cuidadosamente onde vai o suado dinheirinho.
Em um filme que se repete, é o momento de descontentes reclamarem que o verdadeiro espírito do Natal foi perdido – enquanto outros se apressam em, de alguma maneira, ao menos relembrá-lo um pouco buscando uma cartinha nos Correios para alegrar uma criança de família que não tem condições de gastar com nada além do estritamente necessário.
Todo ano sempre a mesma coisa. Nada muda – e o mais interessante: a gente gosta e se diverte assim na expectativa de “boas festas”. Essa expectativa pode ser vista como uma mudança no humor geral da população que, ao enfrentar as necessidades diárias, tem pouco tempo para nutrir esperança e dedicar sua mente a algo que não seja trabalho.
Outra coisa que nunca muda e que não acontece apenas ao final do ano – mas se intensifica nele: a sobrecarga de trabalho feminino para cuidar de tudo enquanto homens reclamam, i.e., quando se dão ao trabalho de acompanhar compras e preparativos (porque, muitas vezes, nem isso).
Como exercício de reflexão, imagine um cenário em que as mulheres da família decidissem não aceitar a sobrecarga extra e, simplesmente, colocassem as perninhas para cima e esperassem que presentes, ceias de Natal e Ano Novo, com comidas e sobremesas, brotassem magicamente sobre as mesas com a limpeza de tudo depois sendo feita pelos ratinhos e passarinhos, tal qual em Cinderela, ou pelos Elfos Domésticos, como em Harry Potter.
Sim, esse texto vai destoar de muitos nessa época do ano porque é uma dura crítica que busca, como toda crítica social, não atacar mas levar ao pensamento. Então, não adianta responder mentalmente agora: “Mas eu sou homem e não faço isso!” ou “Mas eu sou mulher e não me importo porque faço tudo pela felicidade da família!”
Antes disso, procure lembrar como têm sido as festas de fim de ano desde quando você era criança: mulheres, em seu tempo que seria livre, na cozinha e pelas lojas, independentemente de trabalharem exclusivamente em casa ou também fora. Não raro, com as crianças ainda a tiracolo. E os homens da família? Normalmente dividindo cervejas entre si enquanto conversam confortavelmente estirados no sofá, afinal, é folga e estamos em festa!
Ao final das celebrações, mulheres sobrecarregadas, extremamente cansadas, indispostas para curtirem o tal espírito natalino ou de Ano Novo.
Muito provavelmente você, independente de sexo/gênero, se tornou o adulto que repete esse padrão sem sequer pensar, achando que tal comportamento é natural.
Penso muito nas avós – se elas não gostariam de, ao menos uma vez na vida, serem apenas convidadas e não as capitãs que conduzem toda a preparação das ceias familiares por aí. Se não gostariam de ter um dia de folga para curtirem filhos e netos e nada mais.
Por isso, convido vocês ao pensamento.
Homens, não seria o momento de aprenderem a dividirem a responsabilidade do preparo das festas, aliviando a sobrecarga feminina? Não seria isso uma grande demonstração de amor e cuidado?
Mulheres, não seria o momento de aprenderem a delegar tarefas e exigir parceria daqueles que se dizem nossos parceiros, sejam irmãos, maridos, filhos, sobrinhos? Nós não nascemos sabendo fazer pratos gostosos para receber aqueles que amamos com cuidado e zelo. Não nascemos sabendo fazer decorações e esticar o suado dinheirinho da família até caber o que queremos/podemos.
Mas aprendemos por força de nosso papel social a nós imposto desde que nascemos.
Se nós aprendemos – os homens que nos cercam também podem aprender.
Sei que o começo pode ser difícil para todos os lados: primeiramente porque deve ser bem complicado se convencer de tirar os pés de cima da mesinha para efetivamente fazer algo trabalhoso e difícil, como auxiliar de verdade na preparação das festas: renunciar a privilégios exige reconhecimento e abnegação. Em virtude disso, muitas mulheres desistem de fazerem a divisão de tarefas porque enfrentam brigas, discussões e reclamações piores do que aquelas pelas quais passam quando fazem tudo sozinhas, por isso abandonam o trabalho, não raro árduo, de convencerem os homens que as cercam de que é justo dividir as atividades.
Às vezes, para nós, mulheres, tendo sido tão continuamente ensinadas de que o mundo é assim, é difícil sequer perceber a exploração a que somos submetidas com a sobrecarga extra de trabalho em qualquer celebração feita em casa em qualquer época do ano. Precisamos olhar e nos convencer de que não precisamos fazer tudo sozinhas.
Existem muitas soluções possíveis, desde a divisão justa das tarefas (enquanto uns compram ingredientes e presentes, outros preparam refeições etc.); ao encomendar coisas prontas para aqueles que podem pagar com todos organizando o necessário quando a encomenda chegar.
É possível. Desde que nós, mulheres, nos convençamos de que também merecemos estar menos cansadas no momento de celebrar e que os homens, em um verdadeiro espírito de respeito e transformação, colaborem.
Afinal, isso também é amar. Garantir que todos trabalhem e todos possam comemorar juntos, com amor, fé e renovados desejos de uma sociedade mais justa.
Pode não ser fácil. Mas tenho esperança.
Talvez seja apenas o espírito do Natal.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
