Há alguns dias vi uma pessoa publicando no Twitter um causo que me chamou a atenção sobremaneira. Infelizmente não me lembro o nome da conta porque na hora, apesar do interesse, não imaginei que me causaria uma impressão tão profunda e, que dali, levaria para a vida enquanto prática transformadora.
Foi o seguinte. A pessoa relata que estava em um carro de aluguel quando ao lado passou um motociclista irritado e chutou o retrovisor do homem xingando-o. Disse ela que o motorista reposicionou o objeto tranquilamente e falou: “Que o dia dele melhore porque o meu ele não vai atrapalhar”.
Eu li de passagem enquanto corria o feed. Alguns segundos depois, retornei e reli.
Ao longo de vários dias e vários acontecimentos no trânsito, essa história me acompanhou porque me causou um impacto real.
Porque hoje o trânsito parece um campo de guerra e de exposições de falhas de caráter. No momento, é o campo da raiva em que as pessoas extravasam suas frustrações enunciando impropérios uns contra os outros em meio a fechadas perigosas e outras grosserias.
Lafaiete é uma cidade em que é difícil dirigir em vários momentos. Há aqueles que não se constrangem em estacionar debaixo de placas de “proibido estacionar e parar” enquanto calmamente mexem em seus celulares esperando não sei o quê e o trânsito inteiro se embola em um nó difícil de desmanchar. Isso, por exemplo, invariavelmente acontece na rua de acesso à Francisco Lobo, próxima ao antigo supermercado Comaz.
Há aqueles que não cedem passagem mesmo em horário de pico, de forma que filas se estabelecem enquanto se espera um filho de Deus que permita a passagem. A outra opção é assumir a capa da grosseria e se enfiar o carro na frente de outro de maneira mais ou menos calculada para evitar esperar eternidades. O rotor da Av. Telésforo Cândido de Rezende teve que ser mudado, desconfio, em virtude disso. Aguardava-se uma era em horário de pico ali para acessar-se a Tavares de Melo ou mesmo seguir subindo a avenida. E dá-lhe fila, e dá-lhe buzina, e dá-lhe impaciência.
Sendo motorista nesse contexto, a frase desse desconhecido que sequer sei de que parte do Brasil é caiu sobre mim como um ensinamento da mais alta qualidade, da mais alta sabedoria. Um conselho bom, simples de entender – mas que como toda máxima virtuosa, aponta um caminho de difícil prática que seria exatamente a de não permitir que a tormenta exterior altere seu interior.
Vê-se esse profundo ensinamento em práticas religiosas que possuem em sua devoção o complexo exercício da meditação, como o budismo, aparecendo com outras palavras em falas de Sua Santidade, o Dalai Lama, por exemplo. “Um inimigo externo não tem como destruir a nossa tranquilidade de espírito” e “Reagir com raiva costuma não dar certo. Sem ódio, agimos de modo mais eficaz”, disse o líder budista. (*)
Tudo isso resumido na ação prática daquele motorista, sem hipocrisias, que mesmo tendo seu objeto de trabalho atacado pelo motociclista não reagiu com raiva, não permitiu que o ódio lhe tomasse. Antes, proferiu uma bênção: “Que o dia dele melhore” – e afirmou com força de vontade, despido de maus sentimentos tendo por base a firme decisão de manter a sua própria paz: “porque o meu ele não vai atrapalhar”.
Em tempos de ódio não apenas no trânsito, é interessante observar como o ensinamento mais profundo pode estar disponível mesmo em fontes e situações inesperadas: o motorista determinado e ter um bom dia, o feed de uma rede social.
Será que daremos conta de aprender? Será que EU darei conta de aprender?
Sigo tentando. Sigamos.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
Fonte:
- https://super.abril.com.br/historia/a-vida-segundo-o-dalai-lama/
