Estou desde o último dia cinco em recuperação de uma cirurgia com fortes recomendações médicas de que não devo fazer nenhum excesso físico – sequer dirigir – ao longo de 30 dias. Nos primeiros 7 a 10 dias, tive realmente fortes dores controladas com medicação, inclusive, opioides, de forma a garantir meu bem-estar.
Em todo esse tempo, meu marido, que trabalha em cidade vizinha, conseguiu permissão para laborar em home-office para poder me assistir no hospital e em casa, levar ao médico (desde o retorno já foram 3 idas, inclusive com um pico de pressão alta ao Pronto Socorro) e cuidar das minhas necessidades durante os primeiros dias de convalescença. Não temos parentes na cidade e contamos um com o outro.
E é interessante observar como funciona a mente feminina.
Quando saí do hospital, estava com a locomoção bem limitada e era mais fácil aceitar os cuidados. Na medida em que a dor foi diminuindo e os dias passando, observar meu marido trabalhar, assumir além da parte que normalmente lhe cabe das tarefas domésticas, ainda se responsabilizar pela minha, foi ficando pesado para mim. Observar que além de suas próprias funções profissionais bastante exigentes durante todo o dia, ele ainda se desdobra lavando, cozinhando, arrumando, varrendo, organizando, cuidando de nossos animais começou a me causar uma sensação extremamente ruim, como se eu estivesse abusando de sua boa vontade.
É incrível observar como o patriarcado grita mesmo dentro de uma mulher feminista.
Porque observe: o que meu marido fez e continua fazendo ao longo de minha recuperação não é nada fenomenal. É o mesmo que fiz por ele quando ele necessitou após um acidente que lhe dizimou o ombro. É o mesmo que qualquer casal parceiro, que se ama, se respeita e se quer bem deve – ou deveria fazer – um pelo outro ao longo da vida em comum, sempre que houver necessidade.
Mas a pressão machista na minha mente, antes mesmo de eu perceber e nominar sua presença, começou a me cobrar e passei a me sentir uma “encostada” – adjetivo nada nobre que no meu linguajar descreve quem abusa da boa-vontade alheia.
Em um momento que ele saiu para fazer compras, no meu décimo dia de recuperação, já sem a dor constante, me levantei e fui arrumar a cozinha. Uma varridinha mais ou menos no chão, sem forçar muito, tentando não espremer a barriga, uma limpadinha nos armários – e no meio da lavação de vasilhas, o que acontece? A dor de volta, óbvio.
Como me disse meu cardiologista: dez dias após uma cirurgia grande ainda é considerado pós-operatório recente, ora.
Resultado após a estrepolia: remédio e cama. Mas também pus-me a pensar no porquê havia decidido “ajudar” quando esse era o momento de ser cuidada.
E foi difícil perceber que nós, mulheres, não somos educadas para sermos cuidadas, nem mesmo em momentos de necessidade – estamos sempre aptas a cuidar, nos desvelar no amparo aos que necessitam de nós. Somos treinadas para isso desde a mais tenra infância quando colocam bonecas bebês em nossas mãos dizendo que são nossos filhos.
Somos também ensinadas a sermos fortes frente às necessidades de maridos e filhos e não raro relegamos nossas próprias necessidades ao segundo, terceiro plano – isto quando as julgamos de alguma maneira importantes e não as sufocamos esquecendo-nos de nós mesmas.
Estamos sempre prontas: pais doentes? A filha mulher cuida. Filhos doentes? A mãe cuida. Irmão adulto e solteiro doente? A irmã cuida – porque se for casado, a mulher cuida.
E assim não aprendemos a sermos cuidadas, acalentadas e a termos nossas necessidades atendidas – mesmo que sejamos nós a fazermos isso por todos.
Veja como são as coisas: mesmo nesse texto senti a necessidade de entrar em detalhes sobre meu estado físico e recomendações médicas quando apenas dizer que fiz uma cirurgia grande já faria o leitor compreender a situação. Analisando o minha própria escrita percebo que fiz isso como uma espécie de justificativa adiantada para minha necessidade de ser assistida!
E é assim que percebemos que nem mesmo anos de feminismo são capazes de eliminar todos os traços da opressão da nossa psiquê. Porém, dão-nos, com certeza, as ferramentas para nos educarmos como passei a fazer depois da percepção de que estava incomodada por ter meu parceiro de vida cuidando de mim em momento de incapacidade.
“Não estou abusando e nem sendo “encostada”. Nesse momento eu preciso de cuidados.” – tenho repetido isso para mim como um mantra desde então.
A desconstrução é um trabalho diário.
Erica Araújo
@ProfaEricaCL
