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Sobre as delícias de ser bem casada

10 de julho de 2022
in Gerais, Você Repórter
Sobre as delícias de ser bem casada
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Pois é. A feminista politizada, professora, escritora e palestrante aqui é bem casada com um homem há 23 anos. Confesso que acho graça quando pessoas limitadas acham que feministas não se casam – ou que quando o fazem, se casam com outras mulheres.

Não que se casar com outra mulher me soe como uma má ideia: porém não foi algo que me aconteceu.  O que me aconteceu foi, logo cedo, aos 18 anos encontrar aquele que seria a pessoa com quem eu dividiria a vida – bons e maus momentos, sempre juntos. “Nós contra o mundo”, como ele diz.

E pensando nesse relacionamento – que teve e tem suas turbulências, claro: mas em que ele e eu agimos para preservar nossa família, nosso filho e um ao outro, observo a reação de algumas mulheres a denúncias contra seus maridos e me espanto.

Primeiro, Bia Doria, quando surgiram aquelas imagens em que supostamente seu marido João estaria em uma suruba com várias mulheres demonstrando uma competência discutível no assunto. Lembro-me do vídeo posterior, em que Bia aparece visivelmente constrangida ao lado dele, algum tempo depois, enquanto ele sustenta que seria “armação” dos opositores.

Posteriormente, a esposa exposta disse em suas redes sociais que quem tomava a ação de expor semelhante peça não sabia o que era o amor. Saiu em defesa do sentimento dos filhos e da família.

É interessante observar que parece haver uma cartilha pela qual algumas mulheres parecem rezar para dar suporte aos maridos flagrados/acusados de diversos tipos de maus comportamentos na área sexual. Elas parecem não se importarem de servirem de pretensos álibis para esses homens e, voluntariamente, ou não, saltam na frente permitindo-se serem usadas para dar o verniz da probidade.

Veja o caso mais recente: Pedro Guimarães, ex-presidente da Caixa, que enfrenta uma avalanche de acusações de assédio moral, mas especialmente, sexual por várias funcionárias. Obviamente, é preciso esperar que tudo seja apurado e a existência (ou não) de culpa apontada com rigor.

Porém, não houve demora em novamente sacar a esposa para embasar a defesa: “são tantos anos de casamento feliz, X filhos” – e a própria prosseguiu postando em suas redes sociais o texto repetido de que sua família estaria sob ataque dos perversos.

Eu, cá, esposa há mais de duas décadas, fico tentando me enxergar nas mulheres que, ao longo da história, foram usadas indiscriminadamente para sustentar a posição pública de seus esposos sem ninguém se preocupar em preservá-las. São apenas usadas como escudos, sem qualquer respeito pelos seus sentimentos ou por sua posição de ofendida. Porque uma mulher em um casamento monogâmico que descobre supostas acusações contra ou traições perpetradas ou tentadas por seu marido é ofendida, sim, até que se demonstre a ausência de culpa de seu parceiro. (E aqui não discuto o perdoar ou não em caso de culpa porque isso é de cada um que sabe por onde anda seu sentimento ou seus interesses).

Fico tentando pensar se essas inumeráveis mulheres se fecham em mundos de ilusão em que se veem obrigadas a acreditar na farsa da família feliz para não caírem de suas brancas nuvens. Ou se há interesses patrimoniais e sociais em jogo. Ou um misto de ambos.

Independentemente do que seja, vejo aí o porquê de nós, feministas, sermos sempre tão atacadas: chamadas de ignorantes, mal-educadas e contra a família.

Porque, veja, ao passo que não preciso de meu marido para nada – faço questão da presença dele em tudo em virtude de ele, desde o começo, estar à altura do papel que se propôs assumir: cônjuge em um casamento monogâmico e todas as entrelinhas possíveis daí. É o nosso acordo.

E ele sabe que, ao passo que acreditamos e confiamos um no outro, vídeos explícitos ou avalanches de denúncias mereceriam apuração e cuidado em respeito, primeiramente, A MIM. Que eu, como parte que estaria sofrendo, mereceria cuidado – não exposição – independentemente de sua culpa, mas principalmente, se houvesse culpa.

E se ele não tivesse esse cuidado comigo, o que já acenderia um sinal de alerta em clara demonstração de egoísmo, eu mesma teria.

Corpos e mentes feministas não são dóceis, submissos e adestrados aos desejos de poder do patriarcado ou de seus representantes. Por isso o ódio desses homens ao feminismo que produz mulheres não dispostas a se submeterem ao opróbrio público para defender uma honra que sequer é delas – seja por viverem em um mundo de ilusões; seja por interesses outros como manter uma “família” a qualquer custo.

“Família” bem tradicional, diga-se de passagem. Alicerçada no silêncio e sofrimento feminino como foi o casamento de tantas de nossas avós. Não conosco.

Claro que, mesmo nós, mulheres feministas, ainda estamos aprendendo a nos livrar do ranço que fez de tantas de nós uma sombra masculina – mas algumas vitórias na construção de nós mesmas já nos pertencem.

Por isso, podemos viver as delícias de um relacionamento verdadeiro, de cumplicidade, assentado no respeito mútuo e na felicidade de ambos – e se um dia deixar de sê-lo, que siga cada qual o seu caminho, sem permitir que minha imagem se torne o reflexo da vergonha de um relacionamento fracassado porque era mal sustentado apenas por um lado.

 

 

UniFASar

ERM




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