É verdade. Eu estava planejando falar de outro assunto e tinha alguns temas delimitados.
Mas a forma como se acumularam os casos de exposição e negativa de direitos de mulheres não me deixa pensar em outra coisa.
Impressionante como quando ao tratar de uma criança de 11 anos violentada e gestante em virtude disso até mesmo a juíza que deveria lhe assegurar o aborto legal, garantido por lei, queria que ela mantivesse uma gravidez arriscada mesmo que seu corpinho infantil não estivesse preparado para isso em nome de fazer a felicidade de outro casal. Foram muitos os que defenderam o mesmo ignorando completamente a criança grávida, os riscos para sua saúde física e mental, tratando-a como verdadeira incubadora negando-lhe seus direitos.
Aí veio o caso Klara Castanho.
Pessoas inescrupulosas, entre influencers e jornalistas, começaram a divulgar o fato de que ela haveria tido um filho e entregado para a adoção. Fizeram isso ou omitindo o fato de que o bebê seria fruto de um estupro ou, ainda pior: descredibilizando a palavra da vítima.
Nesse ponto, é importante lembrar: qualquer mulher, quer ela tenha engravidado por meio de sexo consentido ou estupro, tem, por lei, o direito de entregar voluntariamente a criança para adoção em um processo que deveria ser sigiloso e que é absolutamente legalizado. Esse dispositivo foi criado com o fim de proteger a gestante, mas especialmente o bebê – uma vez que a mulher não se vê obrigada à manutenção de uma criança indesejada e a criança se vê acolhida e recebida pelas instituições legais evitando seu abandono em situações que poderiam ocasionar até mesmo sua morte.
Klara procurou instrução com advogado, cumpriu todos os trâmites legais, e, ao dar à luz, deixou a criança sob os cuidados institucionais. Porém, em vez de passar por um processo seguro e sigiloso, que era seu direito e da criança, encontrou pelo caminho violência médica ao ser pressionada com frases como “você tem que amá-lo”. Além disso, teve seus dados vazados por alguém da equipe que fez o parto para a imprensa marrom que se apoderou da história e, em novo episódio de violência, expôs o caso ameaçando revelar quem era a tal atriz.
Aqui falo da Klara, uma menina de 21 anos, mal começando a vida adulta. Queria tecer louros à sua coragem e firmeza de caráter. À sua capacidade de decisão, mesmo em situação dificílima. Ela não se fez presa dessa gentinha, não aceitou ser refém: escreveu uma carta na qual se lê seu relato doloroso mas intrépido demonstrando altivez e honra.
Afinal, ela não havia feito nada de errado. Havia apenas agido segundo seus próprios detratores dizem ser correto – manter a gravidez, mesmo que seja de estupro, e dar a criança com segurança e dentro de um processo legal.
Klara se apoderou de sua história e usou seu poder de decisão negado pela violência sexual para falar francamente expondo sua ferida para que servisse de exemplo em uma tentativa para que outros não precisassem sofrer o que havia sofrido em termos de violência institucional e exposição indevida.
Que jovem mulher incrível! Outro dia era uma menininha nas novelas e hoje essa potência…
Como eu desejei sinceramente que ela estivesse abraçada e cuidada pelos seus.
Vi uma foto ontem no Instagram da Larissa Manoela em que estavam também Klara e Maísa. Elas sorriam em uma mesa de lanchonete. Confesso que fiquei de coração confortado imaginando as amigas se abraçando e se apoiando mutuamente, como deve ser.
Elas por elas. Nós por nós. Porque no fim, é isso. Só deve ter importância o que realmente importa: família e amigos. Aqueles que nos querem bem.
Mas não há como fugir: uma das coisas que importa nesse caso também é que quem cometeu tais violências contra Klara seja punido. Porque isso também tem poder de cura.
A justiça é um bálsamo para esse tipo de ferida. Que seja feita.
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
Fontes:
Foto: https://www.instagram.com/p/CfRiQwVLGVX/?utm_source=ig_web_copy_link
