O jardim lá em casa é sempre um projeto em construção. Já tentamos algumas vezes acumulando sucessos e falhas.
Houve um tempo em que comíamos de nossas próprias hortaliças e verduras, plantadas desde a semente, como faz questão meu companheiro. Ele sente que a couve é mais sua quando a plantou para acompanhar todo o processo, desde o brotamento. Assim era com os pimentões, jilós, cenouras, alfaces, repolhos, cenouras e beterrabas. Depois, desanimamos e foi-se embora a horta.
Recentemente, decidimos florir o espaço recém-reformado ao lado da janela do nosso quarto. Optamos por “beijinhos de sol”, em cores roxas, alaranjadas, rosadas e brancas; e gazânias nas cores alaranjadas e roxas.
É impressionante o prazer que dá ver as plantinhas floridas. O prazer de colocar as mãos na terra para cavar e plantar, arrancar matinhos enxeridos. Até vigiar os cachorros para que não queiram revirar e/ou sujar a terra tomou outro tom.
Pensando em “sujar a terra” me lembrei de uma história que ouvi e teria acontecido em uma escola indígena. Uma criança pequena da aldeia, recém-chegada no ambiente escolar, colocava as mãos no barro e “pintava” as paredes com sua impressão palmar. Imagino sua cabecinha pensando que a parede devia mesmo estar muito sem-graça assim de uma cor só – o que era bem diferente do que ela via no seu dia a dia, quando a arte está em cestos, potes e ornamentos confeccionados pelos locais para uso próprio ou para venda. Está também nas pinturas corporais em dias de celebrações.
Alguém do corpo docente viu e deu um grito comandando que a criança parasse de sujar a parede e se sujar de terra.
No momento, estava presente o pajé da aldeia que logo falou: “Cuidado, a terra não é suja. A terra é nossa mãe. Não há como se sujar ao encostar em nossa mãe, que nos dá tudo”.
Eu me vi no lugar da pessoa que estava chamando a atenção da criança. Para nós, cujas raízes ancestrais andam esquecidas, certos saberes estão perdidos. Talvez, se ainda considerássemos a terra nossa mãe ela não estivesse hoje tão maltratada, superaquecida, com mudanças climáticas que ameaçam todas as criaturas, não apenas a humanidade.
Se a terra ainda fosse nossa mãe, pode ser que a Amazônia estivesse sendo explorada em todo o seu potencial turístico, mas preservada em suas matas, nascentes e rios flutuantes.
Porém, devido às mudanças históricas e sociais pelas quais passamos desde a colonização, devido ao abandono de nossos saberes ancestrais, desenvolvemos com a terra uma relação mercantilista, de abuso de sua natureza, com o pensamento de que dela devemos tirar tudo o que pudermos. Como filhos rebeldes que espoliam a rica herança deixada por seus pais.
Quanta diferença no olhar daquele pajé e daquela criança, que se não me engano era Yanomami, se comparamos com nosso olhar utilitarista, em que tudo existe para nos servir. E se não nos serve, que seja descartado. O olhar utilitarista que nos impede de respeitar a existência pelo mero existir.
Em vez de encaramos a terra como nossa mãe, herança ancestral de Divindades benevolentes, ou de Deus, ou dos antepassados, ou do “Big Bang”, somos aqueles que acham uma caçamba de detritos cara e juntamos todos os restos da reforma da casa em um carro e despejamos na mata próxima de casa. Acontece isso com certa frequência na matinha vizinha do meu bairro e um local absolutamente aprazível torna-se lugar de descarte de toda sorte de lixo.
Tudo isso penso enquanto rego minhas flores imaginando os encantados passando por aqui e por ali. Convidados eles estão, claro!
Queria que mais de nós estivessem dispostos a ouvir o chamado ancestral – quero eu estar disposta a recuperar o olhar de quem vê a terra como lar, como a mãe que tudo nos dá.
Quem sabe não podemos começar plantando um jardim?
