Cada vez mais o Carnaval, enquanto festa e movimento popular, tem se voltado para suas raízes, sua origem brasileira, popular, afro-indígena.
E isso, para mim, é sinal dos tempos. Fim do mundo? Armagedon?
Não. Sinal de que a população sofrida, mas resistente, que labora incansavelmente pela própria sobrevivência – e justo por isso quer ter seu tempo de folia – está olhando para si mesma através de um espelho melhor.
Em vez de se querer europeia “puro sangue”, cantando divindades de outros panteões e outras filosofias, quer-se de ascendência africana e indígena. Quer-se brasileira. Diria que é um franco processo de recuperação da síndrome de vira-latas, tão bem nomeada por Nelson Rodrigues.
Finalmente, nós, brasileiros parecemos querer nos apropriar de nós mesmos, de nossa cultura para encontrar nosso ser e estar no mundo.
É o que sinto ao ver os Orixás desfilando nas avenidas. Avenidas – no plural – porque não foi apenas no Rio, mas também em São Paulo que vimos referências aos cultos, mitos e lendas afro-brasileiros e indígenas. Na verdade, vimos essas referências se espalharem também pelos bloquinhos e carnavais de ruas.
Eu, fruto de um lar evangélico, ensinada desde criança que Orixás e demônios são a mesma coisa e que me tornei umbandista através de um profundo processo de questionamento e estudo que envolveram, por que não dizer, a descoberta de minhas próprias raízes brasileiras, vi-me maravilhada vendo os desfiles.
E não defendo que todos os brasileiros devam ser afro-religiosos – isso por si só soa como um tremendo absurdo. Defendo apenas que todos tenham a oportunidade de, como eu no passado, ampliar a visão e entender que Orixás e demônios são seres de mitologias diferentes. Eles não se encontram exceto via colonização, que trouxe todo o preconceito por meio da força para o choque nada pacífico entre esses universos de crenças.
Como sempre digo aos meus alunos: compreender o que o outro crê nos ajuda a respeitar. E respeitar não tem nada a ver com ter que acreditar também. Crer é de foro íntimo: cada um seguirá a religião que lhe falar ao coração – ou nenhuma. O ateísmo também é um movimento legítimo e protegido pela legislação.
O ilegítimo é o ódio colonizador que se mantém fazendo com que as religiões afro-brasileiras e seus adeptos sejam achacados em suas crenças e, não raro no Brasil, atacados fisicamente e/ou em seus terreiros.
Por isso, ver o Orixá Exu na Sapucaí com todo o seu deboche, a boca do mundo, que devora tudo o que vê pela frente, mas também o guardião do Axé e por isso tão neutro quanto o próprio Axé, representado linda e respeitosamente chega a comover. Ainda tivemos entre São Paulo e Rio, Oxalá, Nanã, Omulu, Oxóssi, Iemanjá e Iara…
Tudo isso nos faz lembrar de onde vieram os ritmos populares que fazem brasileiros dançar – seja o samba, seja o funk carioca. Eles vêm dos toques de Orixá, dos atabaques sagrados. Eles vêm de dentro dos terreiros. Porque essa mistura profícua entre sagrado e profano é tão brasileira quanto o mais nato dos brasileiros.
E esse lembrete trazido pelas escolas de samba dentro do maior espetáculo da terra é fundamental para a desconstrução da imagem que o colonizador gravou com ferro quente e chibata no nosso imaginário. É lindo ver as divindades do panteão iorubá e indígena retratadas com beleza e dignidade – como temos feito com deuses gregos e vikings há séculos. Ainda, estudamo-los para aprender sua filosofia, mesmo que não creiamos neles enquanto divindades.
Por que o mesmo não pode acontecer com o panteão africano e nativo? Eu que sempre fui fã de mitologia, quando me permiti mergulhar nos mitos afro-indígenas, vi o quanto o preconceito me negou de cultura e de conhecimento.
Todos nós cresceremos mais enquanto povo, enquanto brasileiros, quando pararmos de cuspir nos que resistiram antes de nós e prepararam o cadinho cultural que frutificou na nossa identidade.
Salve, tia Ciata!
Salve, todos os nossos ancestrais do samba!
Eu quero é mais!!!
Profa. Érica
@ProfaEricaCL
Foto crédito: Divulgação Riotur
