Passei a segunda de carnaval na terapia. Em tempos pandêmicos de isolamento social, foi uma experiência transformadora. Somos frutos da dor, chegamos ao mundo com a dor e essa dor é persistente nos caminhos da vida. Mas o sofrimento é realmente opcional. Por isso existe a terapia. Para falar das mazelas sociais utilizo a palavra escrita em jornais, portais e revistas. Para falar de minhas dores, a terapia é o melhor caminho.
E o caminho nesta pandemia é continuar a jornada com cautela, seguindo os protocolos das instituições sanitárias e procurar ajuda quando o assunto é mais existencial, mais subjetivo que os avanços das ciências e das novas tecnologias. Passei a segunda de carnaval pedindo ajuda para tomar uma decisão. Embora essa resolução estivesse dentro de mim, torna-se imprescindível procurar ajuda de um especialista para tomar decisões em tempos tão sombrios.
Fazer terapia é autocuidado, representa a busca pelo autoconhecimento. Conheço tanta gente que conhece tantos lugares no mundo, mas não consegue se entender, não se olha para dentro com atenção. Conhece o externo e desconhece a complexidade de rizomas de sua própria subjetividade. Essas pessoas sobrevivem no piloto automático, repletas de lugares cheios e de pessoas vazias. A pandemia nos fez recuar, voltar para dentro, às vezes, um lugar inóspito e com inumeráveis memórias subterrâneas que necessitam ser acessadas para a retomada plena de existir. E como é prazerosa a existência dentro de nós mesmos!
Éverlan Stutz é poeta, professor e jornalista.