
O grande diferencial do primeiro concurso virtual “Musa Plus Size Instagram”, cuja final ocorreu no domingo 12/07 além de romper com os tradicionais padrões estéticos e exaltar concepções plurais e inclusivas de charme e elegância, foi mostrar que a verdadeira beleza feminina desconhece barreiras. A personificação desta pluralidade se traduz na história de vida de uma das concorrentes, que se classificou entre as seis mais votadas da etapa final e ostentaria cetro e coroa se o concurso fosse para eleger a Miss Superação.

É difícil encontrar, em Lafaiete, alguém que não conheça Lucimar da Silva, hoje com bem vividos 50 anos e cadeirante desde a infância. Foi a partir do momento em que perdeu o movimento das pernas que ela começou a trilhar um caminho repleto de desafios, todos encarados com bom humor, uma fé inabalável e absoluto amor à vida. Tão logo os pais souberam que Lucimar havia sido vítima de paralisia infantil em consequência da poliomielite, não desanimaram e fizeram tudo ao seu alcance para reverter o quadro. Entre a infância e adolescência, ela se submeteu ao total de 10 cirurgias, das quais nenhuma obteve resultado positivo.
Porém, para Lucimar, este revés estava muito longe de significar derrota. Resiliente por condição e guerreira por vocação, ela se recusou a baixar a cabeça e apenas ajustou o foco, sabedora de que havia muitas batalhas a serem vencidas. O primeiro passo foi retomar os estudos, interrompidos por 10 anos por conta da sequência de cirurgias e das intermináveis sessões de fisioterapia, até se formar em magistério. Com o diploma na mão, veio a luta contra um opositor bem mais difícil de derrubar: o preconceito. Professora formada, Lucimar nunca conseguiu dar uma só aula, barrada pela arquitetura segregadora das escolas, repletas de escadas e sem nenhuma rampa de acesso, e pela má vontade dos diretores da época, cujas mentes tacanhas se recusavam a buscar alternativas para eliminar os obstáculos. A saída coube a ela mesma encontrar, passando a dar aulas particulares e recebendo os alunos em casa.
Esta fase de sua vida, a própria Lucimar da Silva, negra e cadeirante, descreveu em entrevista ao Site de Notícias Fato Real: “Sofri muito racismo e discriminação ao longo da vida. Por ser cadeirante, as pessoas não acreditavam na minha capacidade; achavam que eu não tinha condições de assumir nenhuma tarefa. Mas estava determinada e não queria me tornar mais uma a ser desacreditada pela sociedade. Me inscrevi em um concurso da prefeitura e passei em primeiro lugar. No dia em que me apresentei para trabalhar num posto de saúde, escutei do chefe o que todo deficiente ouve em algum momento da vida: não havia nada que eu pudesse fazer ali”. Àquela altura, Lucimar da Silva já tinha se tornado especialista em adoçar a própria limonada. A recusa a magoou, doeu por dentro, mas não a desanimou. Trabalhou por dez anos em postos de saúde da prefeitura, chegando a ser coordenadora, e só saiu para assumir outro emprego no Hospital e Maternidade São José, onde atraiu o carinho e o respeito dos colegas. De lá, retornou à Prefeitura, onde trabalha até hoje como servidora efetiva.

Como nunca soube ficar quieta, Lucimar viu no primeiro concurso virtual “Musa Plus Size Instagram” mais uma oportunidade de conquistar novos horizontes. A inscrição da candidata foi aplaudida pela idealizadora do evento, Letícia Faria, como iniciativa completamente inserida no espírito ousado e agregador do concurso, imaginado para derrubar tabus e promover a diversidade.

Lucimar fez bonito, literalmente, e, como uma das seis primeiras colocadas, arrebatou o título da categoria “Musa Beleza Real”. Ela falou da alegria de acrescentar mais este feito à sua extensa galeria de vitórias pessoais: “Esse concurso abriu portas para muitas mulheres que se sentiam inferiores às outras, mostrando que a beleza não se resume a um corpo bem feito; é muito mais que isso. Gostaria de aconselhar outras companheiras cadeirantes, negras ou gordinhas como eu, a que não se prendam a opiniões depreciativas, pois todas nós temos o nosso potencial, nosso valor e nossa capacidade. Eu sou a prova viva disso”, foi o que Lucimar da Silva fez questão de deixar como mensagem final.
Aimar Souza
