Antes de completar a primeira semana da declaração de calamidade pública, em todos os estados, as propostas para dar continuidade aos calendários escolares e evitar que os estudantes das escolas públicas tivessem o prejuízo de um ano letivo perdido, começaram a brotar, idealizadas pelos mesmos atores de sempre: institutos, fundações e grupos empresariais que fazem lobby na área de educação.
O país passa por um período de pandemia, com pessoas em situação de isolamento, muitos desempregados ou perdendo emprego, outros trabalhando em casa e tendo salários reduzidos, grande parte vivendo amontoados em espaços minúsculos, com condições inadequadas de higiene e alimentação, com altos índices de violência doméstica. Essa situação requer medidas que vise à proteção à vida, cuidados com a saúde física e mental de crianças, jovens, adolescentes, adultos e idosos.
Por outro lado, qualquer análise séria do sistema de educação, básica e superior, no Brasil, mostra que o país não apresenta as condições mínimos, como meios de acesso e pessoal qualificado para, em curto espaço de tempo, ofertar educação a distância de qualidade para cerca de 56 milhões de estudantes. Os alunos de escolas particulares estão fazendo o movimento de mudança de maneira a se adaptar aos novos tempos de Covid-19, ou seja, passando de aulas presenciais para aulas mediadas por diferentes tecnologias. Mas não é essa a situação em todo o pais, seja do ponto de vista de acesso aos insumos tecnológicos, seja por questão de nível de escolaridade dos próprios pais, sem falar no difícil clima familiar que as famílias mais pobres estão vivendo por causa do desemprego e da falta de dinheiro para a própria alimentação.
Aqui no Brasil, a melhor solução para os alunos das redes públicas de ensino está sendo uso de conteúdos transmitidos por meio dos celulares com internet ou de buscar apostilas nas escolas para manter os estudos por elas por um determinado período. No meu ponto de vista, essa será oportunidade para repensar o papel da escola e dos pais na vida escolar dos estudantes. Os pais, sobrecarregados pelos diferentes afazeres, estão cada vez mais terceirizando para a escola o seu dever de educar, na contramão do que apregoa o art. 205 da Constituição Federal, que afirma que educar é um dever do Estado e das famílias.
Em uma de suas falas, o papa Francisco afirmou, em tom preocupado: “Chegou a hora de os pais e as mães voltarem do seu exílio e recuperarem a sua função educativa. Oremos para que o Senhor conceda aos pais esta graça: a de não se autoexilarem da educação dos filhos”. O não enfrentamento da questão de modernização das escolas públicas talvez nos remeta à situação atual no que se refere às enormes desigualdades de acesso entre elas e as particulares. Ao fim e ao cabo, continuar o calendário letivo usando atividades não presenciais em desigualdade de condições trará algumas certezas: os sistemas de ensino dirão que cumpriram o calendário letivo e farão de conta que ensinaram; os professores saberão, que apesar de todos os esforços, inclusive do adoecimento, não conseguiram ensinar; os estudantes terão certeza que não aprenderam; gestores escolares, pais, mães e responsáveis saberão que, a maioria dos estudantes ficaram para trás, não só os que foram reprovados, mas sobretudo os que evadiram;a sociedade verá que o estado, mais uma vez, negou o direito à educação e o mercado de “soluções educacionais” terá lucrado como nunca, vendendo ilusões e culpando a escola e seus professores pelo fracasso de seus produtos tabajara.
Esse vírus que simplesmente paralisou o planeta, expondo a nossa fragilidade, também mostrou aos governantes a necessidade de investir fortemente em ciência e tecnologia.
Tô Sabendo e Vou Falar
Aaron Fênix
