
Até o fechamento deste texto, Conselheiro Lafaiete tinha 17 casos confirmados oficialmente de COVID-19. Apesar do boletim diário afirmar que nenhuma morte foi constatada por causa do Sars-CoV-2, coronavírus causador da pandemia, o município já teve dois óbitos registrados em cartório tendo como causa a COVID-19, desde o dia 26 de fevereiro, data em que foi confirmada a primeira morte pela doença no Brasil (Clique aqui e veja os dados do Portal da Transparência de Registro Civil).
Porém, diante do cenário e protocolos tão inovadores até para os profissionais de saúde, não há uma situação clara dos dados. Em Lafaiete mesmo, em um atestado de óbito constava entre as causa mortis de um paciente de 82 anos, a COVID-19. Dias depois veio a informação de que o preenchimento do documento ficou incompleto, porque não teve a palavra “suspeito”.
Caminhamos para o ciclo mais dramático da crise, o sistema de saúde já está sobrecarregado e, como declarou o próprio prefeito durante a semana, existe fila para o acesso às UTI’s do município. Faltam ainda os testes de laboratório, para compreender a real dimensão da disseminação da COVID-19 em Lafaiete. Para enfrentarmos o que está por vir, é preciso foco total nas estratégias de combate à doença.
A prefeitura de Conselheiro Lafaiete publicou um contrato assinado no dia 27 de abril, no qual prevê a compra de mil testes rápidos, de detecção de IgG e IgM, por um valor total de R$175 mil reais. A publicação prevê dispensa de licitação, em vista da pandemia, na negociação com a fornecedora Comercial Cirúrgica Rioclarense, empresa de Rio Claro, interior de São Paulo.
Os insumos negociados pelo município lafaietense são conhecidos como “testes rápidos” e, em texto publicado no dia 24 de abril, três dias antes da assinatura do contrato, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que os testes laboratoriais que detectam anticorpos que combatem o Sars-CoV-2, coronavírus causador da COVID-19, carecem de maior validação para determinar sua precisão e confiabilidade. Testes imprecisos, segundo a OMS, podem atrapalhar os esforços de controle da doença no município, primeiro porque podem categorizar pessoas que estão infectadas como negativos para a doença; depois, porque podem categorizar pessoas não infectadas como falsos positivos. Em Ouro Branco neste sábado (02/05) o prefeito informou um caso que ilustra bem esta situação. Uma pessoa recebeu resultado positivo para COVID-19 em teste realizado em laboratório particular. No entanto, dois outros exames feitos como contraprova apresentaram resultados negativos.
A própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) afirma que o diagnóstico de Covid-19 não deve ser feito por uma avaliação isolada dos resultados dos testes rápidos. No estágio inicial da infecção, falsos negativos são esperados, em razão da ausência ou de baixos níveis dos anticorpos e dos antígenos de Sars-CoV-2 na amostra. E o resultado do teste positivo indica a presença de anticorpos contra o Sars-CoV-2, o que significa que houve exposição ao vírus, não sendo possível definir apenas pelo resultado do teste se há ou não infecção ativa no momento da testagem.
Cabe ao poder executivo municipal responder, portanto, qual será a estratégia utilizada para aplicação de mil testes, que precisarão ser validados por outros métodos. A resposta tem que valer cada centavo dos R$175 mil investidos em testes de confiabilidade contestável, ao invés de continuar reforçando a infraestrutura de saúde do município.
Fernando Baêta
Jornalista
