Editorial
Até o fechamento deste editorial na tarde deste sábado 11/04 ainda não havia sido confirmado pelas autoridades de saúde locais oficialmente nenhum caso de contaminação pelo coronavírus em Conselheiro Lafaiete. A cidade não ter nenhum caso de covid-19 era para ser positivo. Era, mas não é! Ao invés de perceber que o isolamento social está dando resultado e por isso não temos casos da doença covid-19, parece que o lafaietense está precisando “ver pra crer”.
Contrariando o que vem sendo exaustivamente recomendado pelas autoridades de saúde mundiais, do Brasil, de Minas e do próprio Município, pessoas estão indo às ruas aos montes e em especial hoje, enfrentando longas filas, dispensando as máscaras e sem respeitar o distanciamento mínimo atraídas pela compra de ovos de Páscoa. Para não quebrar a tradição pascal e evitar o encalhe de produtos nas lojas de chocolates, a prefeitura flexibilizou as regras de funcionamento do comércio e permitiu a abertura exclusivamente deste segmento, sob a condição de que estabelecimentos e consumidores obedecessem rigorosamente as regras do isolamento social imposto na tentativa de frear o avanço da pandemia causada pelo novo coronavírus. Porém, na prática, não foi o que aconteceu. E a fiscalização não ocorreu, e vimos grandes aglomerações, criando deste modo o ambiente perfeito para que o coronavírus se espalhe.
Seguindo o equivocado exemplo que vem de cima, já que o presidente da República insiste em contradizer as orientações recebidas do próprio Governo através do Ministério da Saúde, a população de Lafaiete parece ter os olhos vendados para não encarar o perigo iminente. Basta tirar as vendas e ver casos confirmados ao redor como Barbacena, Jeceaba, Entre Rios de Minas. Nós não somos melhores que o resto do mundo; nossas autoridades de saúde não são mais eficientes que aquelas do resto do mundo; nós não somos imunes ao vírus. Para não enfrentar a realidade, muitos se amparam em argumentos frágeis do tipo: o coronavírus ainda não chegou por aqui e talvez nem chegue. Por isso vimos propor uma breve reflexão:
Não temos casos ou não temos exames para todos os casos suspeitos? Por que os resultados de exames de outras cidades parecem chegar mais rápido que os de Lafaiete? Por que ficamos com a sensação de que as informações divulgadas pela imprensa estão incompletas? O que não bate nesta história que deixa o desconfiado mineiro lafaietense sem acreditar no que ouve?
A Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, já deixou mais de 100 mil mortos em todo o mundo. Mesmo com a quarentena em vigor desde a segunda quinzena de março, ultrapassamos a preocupante marca de mil mortes em cerca de 10 mil casos confirmados no Brasil e as autoridades advertem que o país ainda está longe de atingir o pico de contaminações. Em Minas Gerais são 17 mortes e quase 60 mil casos investigados.
Se este é o cenário no mundo, no Brasil, em Minas, por que Lafaiete seria poupada? Se, graças a uma inédita conjunção astral ou sabe-se lá por que razão sobrenatural, a cidade estivesse imune aos efeitos devastadores da doença, por que as autoridades estariam empenhadas em montar um hospital de campanha para receber pacientes graves e equipar a Policlínica Municipal com salas vermelhas para socorrer infectados de média gravidade?
Mas, se os fatos recordados acima ainda não foram argumentos convincentes, e você acha que é preciso ver pra crer passamos a narrar os últimos acontecimentos. Extraoficialmente, o Fato Real teve acesso a um atestado de óbito emitido esta semana em Conselheiro Lafaiete. No documento está como causa da morte: INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA – COVID 19 – ENFISEMA PULMONAR. Pessoas próximas disseram que, entre o falecimento e o sepultamento foi tudo muito rápido. Em algumas horas o corpo foi retirado do Hospital e Maternidade São José, onde ocorreu o falecimento, já em uma urna lacrada, direto para o cemitério. O sepultamento foi imediato, sem velório e sem presença de amigos. Os poucos parentes presentes tiveram que usar máscaras e luvas. Assim como é recomendado em casos de covid-19.
Sob a condição de anonimato o Fato Real conversou com outras pessoas que, com todos os sintomas da doença procuraram a Policlínica Municipal e saíram de lá apenas com a orientação de voltar pra casa e ficar em isolamento. “Meu esposo estava passando mal com três sintomas da Covid-19 e fomos ao PSF do bairro, que não tem médico há bastante tempo. Lá pediram para que eu o levasse no pronto socorro pra ser examinado, dizendo que se eu não levasse estaria sendo responsável por qualquer coisa que acontecesse a ele. Porém chegamos no pronto socorro, expliquei a situação, pedi uma máscara pra nós dois, pois não tinha conseguido achar para comprar. Depois de muito tempo consegui uma máscara pra ele e ele foi atendido e diagnosticado como suspeito, mas não teve nenhum acompanhamento médico e nenhum exame feito”, relatou a esposa.
Não pense que o que você não vê, não existe. Não espere que os números se transformem em nomes de pessoas que você conhece ou ama. É voz corrente que o lafaietense age como São Tomé: só acredita vendo. Contudo, se não rever esta atitude e enxergar a nova realidade, será obrigado a mudar de devoção e encaminhar, com todo o fervor, suas preces a São Lázaro, o protetor dos enfermos.
Fato Real

