Além de ser professora e escritora, dedico uma parte do meu tempo às palestras. Enxergo esse lado como uma extensão da minha relação com a educação – porque sempre procuro fazer as pessoas refletirem sobre questões importantes.
Então você pode trombar comigo por aí falando sobre sexualidade, sobre filosofia e vida cidadã, sobre o negro e a história, sobre racismo religioso em vários lugares: desde encontros de comarcas, passando por presídios até as escolas.
No mês de novembro sempre aparecem muitos pedidos para que eu fale sobre a questão da Consciência Negra e é sempre um momento muito delicado porque o assunto exige muito mais do que um relato de fatos, já que estamos em busca da construção de uma identidade brasileira que corresponda ao nosso passado e que tal identidade tenha impacto sobre o nosso presente e nosso ser e estar no mundo.
Muitas vezes, portanto, acontecem momentos de forte emoção e confesso que evito tocar em assuntos como as Abayomis, as bonequinhas feitas pelas mamães negras sequestradas de rasgos de suas vestes para confortar as suas crianças dentro dos navios negreiros. É choro na certa – e eu tenho que dar conta de falar, às vezes por duas horas.
Mas ontem eu estava falando para aproximadamente 60 crianças de cerca de 10 anos em uma escola sobre toda essa questão histórica que envolve as raízes do racismo. Eu sempre acreditei que, ao entender o processo das coisas, como algo se fez, iniciamos um anti-processo, a desconstrução, a “desnaturalização” dessa coisa. Ou seja, deixamos de achar que aquilo veio conosco, que faz parte inexorável da sociedade ou de quem somos e ganhamos alguma autonomia na transformação de determinados comportamentos, se assim o desejarmos.
Tudo ia bem com uma boa conversa entendendo o porquê de a objetificação e animalização da figura do negro ter tornado tudo o que vem da África (pessoas e cultura) ruim, de baixa qualidade, demoníaco.
Como a escravidão roubou mão de obra e cérebros africanos, o que ajuda a entender algumas coisas sobre o desenvolvimento do continente que produziu maravilhas muito além do Egito.
Eu podia observar algumas professoras emocionadas porque procuro criar imagens mentais bem gráficas do que é ser arrancado da sua terra por criminosos. Algumas crianças também.
Eu procuro não olhar diretamente porque senão o choro é certo, mas nessa parte não consegui. Eu com minha pele marrom clara e meus cabelos crespos carrego em mim algoz e vítima. E milênios de história.
A conversa se tornou bem mais emocional e isso me dá esperança porque são nossas boas emoções e as ações que vierem delas que mudarão nossa sociedade racista.
Ao final, recebi um abraço em onda de várias crianças negras q se levantaram espontaneamente, de uma vez, de vários cantos do auditório e correram para os meus braços.
É muito bom se reconhecer bonito, inteligente e também herdeiro de uma cultura ímpar…
Eu queria terminar aqui. Mas a vida não é tão bonita quanto desejamos.
…
Vi quando chegou uma professora muitíssimo emocionada trazendo um menino negro para perto. Esperaram q eu recebesse todos os abraços.
Eu e essa professora temos um relacionamento excelente. Já conversamos muitas horas sobre tudo – religião, política, racismo. Tanto eu quanto ela nos descobrimos parte da população negra tardiamente como parte de um processo de reconstrução identitária que, inclusive, passou pelos cabelos.
Quando ficamos os três, ela disse entre lágrimas: “Ele chorou na sua fala o tempo todo. Queria que você conversasse com ele. Ele foi vítima”. – e saiu porque não estava conseguindo segurar o choro.
Perguntei a ele o que havia acontecido.
“Uma menina da outra sala. Ela me disse que sou preto, que era pra sair de perto dela. Que ela tinha nojo de mim”. E também chorou. De soluçar com lágrimas escorrendo pelas bochechas.
Eu olhei pra ele e por alguns segundos tentei imaginar o que é isso de se sentir rejeitado pelo q se é. Pelo que não se tem o poder de mudar, por mais q se deseje – porque isso acontece. Se tenta clarear a pele e se esticar o cabelo por isso, pelo racismo e pela falta de referências positivas.
Queria eu ter o poder curativo que me foi atribuído quando essa criança foi sentada ao meu lado.
Mas o máximo que tenho são palavras. Conversamos sobre a beleza de ser negro e a importância de civilizações africanas. Que para começar, preto não é xingamento – só se transforma nisso na boca de ignorantes. Sobre uma herança riquíssima, uma história de milênios da qual a objetificação se resume a meros 300 e poucos anos – e q foram cheios de luta.
O povo negro é povo culto e belo. É um povo que não se submete e luta.
Aos poucos as lágrimas secaram. E até um sorrisinho apareceu.
Quisera eu poder fazer mais. Mas o que tenho a oferecer é meu esforço pessoal e contínuo de transformação social.
Um esforço que reflete a luta iniciada há tantos séculos, que permanece encabeçada por outras tantas individualidades. Porque somos muitos. E somos fortes. E vamos continuar lutando.
Havemos de vencer.
Érica Araújo e Castro
Professora, escritora e palestrante
Conselheiro Lafaiete
