“Amigos meus, está chegando a hora
Em que a tristeza aproveita pra entrar”.

Estes versos, que abrem um melancólico samba com letra e música de Vinícius de Moraes (um dos últimos compostos pelo poeta), dão a dimensão do que está sendo este 2020 no mundo inteiro: um ano de sonhos interrompidos, de projetos adiados, expectativas frustradas, adeuses repentinos e dolorosos. Um mal invisível se espalhou pelo ar forçando a gente ao convívio solitário com a saudade, a ausência e a incerteza. Nas últimas semanas, o vírus letal que mudou nossas vidas arrebatou do Brasil o seu repórter musical. Aldir Blanc, médico e psiquiatra de formação (o que, certamente, terá contribuído para seu profundo conhecimento das virtudes e fragilidades humanas) foi escritor, cronista e, acima de tudo, um letrista refinado, irônico e sensível que encontrou, no violão e na voz do cantor mineiro João Bosco, a comunhão perfeita de versos e melodias que são a cara de um país mestiço, contraditório e feliz, desafiando todos os obstáculos.

No mesmo dia em que Mestre Aldir foi embora contra vontade, o país se surpreendeu com outra perda inesperada. Talvez por não mais resistir à falta de calor humano, o fantástico ator Flávio Migliaccio, cujo ofício, ao longo de mais de seis décadas, foi usar o palco como instrumento para emocionar plateias e cativar um público incalculável de admiradores dando vida a personagens memoráveis no cinema e na TV, decidiu que era hora de antecipar a própria partida. Aos 85 anos, saiu voluntariamente de cena deixando, como mensagem final, o apelo para que as crianças e os idosos voltem a ter seu valor reconhecido.
Nem mesmo projetando o mais pessimista dos cenários, ninguém podia imaginar que um dia se veria impedido de ir ao barzinho de sempre no fim da tarde, disputar a pelada sagrada do fim de semana, encontrar os amigos no clube, assistir àquele show musical há tanto tempo esperado ou aplaudir um elenco inteiro em cena aberta ao término de uma peça inesquecível. Contudo, a realidade se impôs e a única alternativa possível é continuar em casa torcendo para que o mau tempo passe e volte em breve a imperar a era das mãos dadas e dos abraços afetuosos.
Cortinas fechadas

Por enquanto, não há condições nem clima para que as cortinas se abram, razão pela qual Conselheiro Lafaiete deixará de assistir o 20º Festival de Artes Cênicas, tradicional evento cultural que realizaria, na segunda metade de julho próximo. A decisão foi oficializada em comunicado assinado pela presidente da Casa do Teatro, Graça Lemos. Leia aqui.
Conforme explicou Geraldo Lafayette, fundador da Casa do Teatro e idealizador da semana de espetáculos que atrai todo ano à cidade grupos locais, regionais e do país inteiro, o isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus inviabilizou o deslocamento dos artistas. Além disso, o temor pelas consequências econômicas da interrupção quase total das atividades comerciais diminuiu consideravelmente o apoio financeiro com o qual a organização do evento sempre contou, inviabilizando a montagem da infraestrutura necessário ao acolhimento dos grupos que vêm de diversos estados brasileiros para se apresentar em Lafaiete.
Em toda a história do FACE, só tinha havido um adiamento até então: o festival deixou de acontecer em 2011, quando a gestão municipal vigente não quis ceder o Teatro Municipal para as representações, além de outros entraves burocráticos.
A preparação do 20º FACE estava a todo vapor antes da chegada da COVID-19. O homenageado já havia sido escolhido pela Casa do Teatro: seria o artista plástico e agitador cultural Hélcio Queiroz, presidente da AMAR (Associação de Moradores dos Bairros Angélica e Albinópolis) – equipada com uma biblioteca pública de vasto acervo, e criador do “Projeto Gentileza”, que adorna os muros com belos trabalhos em mosaico. Além disso, diversos grupos do Brasil inteiro já tinham confirmado participação no festival. A homenagem e as apresentações, porém, ficam para o próximo ano, quando, certamente, a rotina de Lafaiete e do Brasil terá retornado à normalidade.O homenageado também está mantido para o período de 17 a 25 de julho de 2021.
Até lá, seguindo a cartilha de Bosco & Blanc, impelido pela esperança equilibrista e teimosa que não nos abandona, vamos nos guiando pelos versos finais, repletos de esperança, daquele mesmo samba de Vinícius que abriu esta matéria e que, muito apropriadamente, se chama “Um Pouco de Ilusão”:
“Mas tem também
Uma sala que está vazia Sem luz, sem amor sombria
Prontinha pro show voltar
E, no outro dia
A gente vê novamente
A sala se encher de gente
Pra gente recomeçar”
Aimar Souza
