EDITORIAL | FATO REAL
Tem um detalhe das eleições de 2026 que merece atenção. E não está apenas nos discursos dos candidatos, nas redes sociais ou nas pesquisas. Está na idade de quem vai apertar a tecla da urna.
O Brasil chega a esta eleição com 37,45 milhões de eleitores com 60 anos ou mais. Eles representam 23,6% de todo o eleitorado brasileiro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Em 2022, eram 32,89 milhões, ou 21% do eleitorado. Em quatro anos, foram acrescentados mais de 4,5 milhões de eleitores nessa faixa etária.
É uma mudança importante no perfil de quem participa das eleições. Não é correto dizer simplesmente que “o voto do idoso vai definir a eleição”. Nenhum grupo, isoladamente, determina o resultado. Mas também seria um erro tratar esses milhões de eleitores como um detalhe. Eles formam quase um quarto do eleitorado nacional.
E existe outro dado que chama atenção. Para quem tem entre 18 e 69 anos, o voto é obrigatório, observadas as regras legais. A partir dos 70, o voto passa a ser facultativo. Também é facultativo para analfabetos e jovens de 16 e 17 anos. Ou seja, uma parcela expressiva dos brasileiros com mais de 60 anos ainda tem participação eleitoral obrigatória.
Para quem tem 70 anos ou mais, a decisão de ir às urnas passa a ser voluntária. E isso coloca a participação eleitoral no centro da discussão. Porque não basta olhar para o tamanho desse eleitorado. É preciso observar quantos comparecem.
Em 2022, no segundo turno presidencial, mais de 32,2 milhões de eleitores não votaram, o equivalente a 20,59% do eleitorado apto. A disputa terminou com pouco mais de 2,1 milhões de votos de diferença entre os dois candidatos à Presidência. A matemática eleitoral, portanto, mostra que milhões de pessoas que não comparecem às urnas também fazem parte da história de uma eleição.
E o envelhecimento do eleitorado muda também os assuntos que precisam estar no debate público. Saúde, medicamentos, aposentadoria, renda, transporte, acessibilidade, moradia, segurança, atendimento público e cuidados de longa duração não são temas de um grupo isolado. São questões que atingem famílias inteiras.
Portanto, discutir o eleitorado idoso não significa transformar a terceira idade em um bloco político. Significa reconhecer uma transformação demográfica que já chegou às urnas.
E há uma ironia nessa história. Enquanto muita gente ainda imagina que política é assunto dos mais jovens, o cadastro eleitoral mostra justamente o contrário: o Brasil está envelhecendo, e o eleitorado também. E, numa eleição disputada voto a voto, cada presença pode contar.
