A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) fez um pedido público de desculpas à sociedade brasileira pelo uso de cadáveres provenientes do Hospital Colônia de Barbacena em aulas de anatomia ao longo do século XX. A declaração foi assinada em 18 de março pela então reitora Sandra Goulart Almeida e reconhece violações de direitos humanos relacionadas ao destino dado aos corpos de pacientes da instituição psiquiátrica.
O posicionamento oficial reconhece que o Hospital Colônia de Barbacena e outras instituições do estado foram palco de internações marcadas por abusos e violações. Pessoas de diferentes idades eram encaminhadas para esses locais sob a justificativa de transtornos mentais. Após a morte, muitas vítimas eram enterradas como indigentes ou tinham seus corpos encaminhados a escolas médicas para fins acadêmicos, sem autorização ou respeito à dignidade humana. O texto também reconhece que os procedimentos adotados no passado contribuíram para a violação da dignidade de milhares de pessoas internadas.
Além do reconhecimento público, a universidade anunciou a adoção de medidas voltadas à preservação da memória e à revisão de práticas acadêmicas. Entre as ações previstas está a restauração do livro histórico que registra a entrada e o destino de cadáveres utilizados em estudos. O tema também passará a integrar o conteúdo das disciplinas de anatomia da Faculdade de Medicina, com abordagem voltada à ética, direitos humanos e respeito à dignidade das pessoas.
Luta antimanicomial
As iniciativas serão desenvolvidas em parceria com grupos ligados à luta antimanicomial, que historicamente denunciam abusos em instituições psiquiátricas. A proposta é ampliar o debate sobre o passado e reforçar o compromisso com práticas responsáveis no ensino médico.
A universidade também destacou que, desde 1999, mantém um programa de doação voluntária de corpos para estudo científico. O modelo atual segue critérios baseados em consentimento formal e atende a padrões éticos e legais reconhecidos internacionalmente.
O Hospital Colônia de Barbacena tornou-se símbolo de violações históricas no atendimento psiquiátrico brasileiro. A manifestação pública da universidade busca reconhecer esse passado e estabelecer novas diretrizes voltadas à memória, à reparação simbólica e ao respeito aos direitos humanos.
