O som que atravessou gerações voltou a ecoar. Em Conselheiro Lafaiete, a redescoberta e restauração de violas centenárias reacendem uma das mais ricas tradições culturais de Minas Gerais. A cidade Queluz, reafirma seu título simbólico de terra das violas.
A iniciativa de resgate ganhou força nos últimos anos, impulsionada por colecionadores, músicos e artesãos que decidiram enfrentar o esquecimento. Instrumentos raros, muitos deles danificados pelo tempo, começaram a ser localizados em antigas residências e acervos familiares. Alguns estavam prestes a desaparecer.
O que parecia perdido revelou uma história surpreendente. As Violas de Queluz, produzidas entre os séculos XIX e XX, eram peças únicas. Feitas à mão, com madeira selecionada e ornamentação detalhada, elas não eram apenas instrumentos musicais. Eram símbolos de prestígio.
A história remonta a 1889, quando o imperador percorreu cidades históricas de Minas Gerais. Durante a passagem por Queluz, artesãos locais apresentaram ao monarca o que havia de mais refinado na cultura regional. Entre as demonstrações, uma serenata com a viola que hoje volta a ganhar vida.
Lafaiete referência
Famílias de artesãos moldaram essa tradição. Nomes como Meirelles e Salgado dominaram a técnica e transformaram a fabricação em arte. Cada viola carregava identidade própria. Marchetarias sofisticadas, cravelhas de madeira e acabamento minucioso diferenciavam os instrumentos mineiros das influências europeias.
Com o passar do tempo, a tradição perdeu espaço. A industrialização e as mudanças culturais afastaram as novas gerações. Muitas oficinas fecharam. O conhecimento quase se perdeu.
Até que veio a reviravolta
Movimentos recentes de preservação trouxeram à tona instrumentos esquecidos. A restauração minuciosa devolveu não apenas a forma, mas também o som original. O que antes era silêncio voltou a ser música.
Hoje, o instrumento é reconhecido como patrimônio imaterial. Há iniciativas para preservar o modo de fabricação e evitar que o conhecimento desapareça. A retomada não é apenas estética. É histórica.
Projetos buscam preservar técnicas antigas e incentivar novos artesãos. A cidade volta a ser referência, agora também como símbolo de resistência cultural.
Cavalo e viola
Em Lafaiete, esse vínculo entre cavalo e viola mantém tradições. O município integra uma região considerada berço da raça Cavalo Campolina. Também abriga núcleos dedicados ao Cavalo Mangalarga Marchador. O cavalo é extraordinário, um animal admirado pela nobreza e inteligência, parceiro incontestável da ração humana.
Cavalo e viola permanecem como símbolos de resistência cultural e identidade regional, conectando passado e presente no cotidiano do interior. Em 2022, Lafaiete ganhou um “Monumento ao Cavalo”, referência da atividade em nosso município, instalado no trevo do bairro Santa Matilde. Lafaiete pode ser a “Cidade do Cavalo”, mas antes de tudo é nacionalmente conhecida como a “Cidade da Viola de Queluz”.
“Há de se pensar em criar um monumento com uma viola na praça, por que não?” A retomada não é apenas sobre instrumentos. É sobre identidade. É sobre memória. É sobre um som que insiste em não desaparecer. Uma viola estilizada funcionaria como uma homenagem permanente.
E quando a viola toca, ela não conta apenas uma melodia. Ela conta a história de um povo.
Por jornalista Marcos Ribeiro
