A expiração da patente da substância semaglutida a partir de 20/03, utilizada em medicamentos como Ozempic, abre uma nova fase no tratamento da obesidade. A mudança permite que outras farmacêuticas produzam versões genéricas, sem necessidade de licenciamento compulsório, e deve impactar preços, acesso e políticas públicas de saúde.
Na prática, o mercado é liberado, mas o efeito imediato esperado pela população ainda pode demorar. Até o momento, nenhum medicamento genérico foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, apesar de pelo menos 15 pedidos em análise. A previsão é que novas versões cheguem às farmácias a partir de junho.
A expectativa de preços mais baixos mobiliza gestores públicos e pacientes. A discussão ganha relevância diante da crescente demanda por tratamentos contra obesidade e doenças associadas, como diabetes tipo 2 e hipertensão. A possível ampliação do acesso pode reduzir internações e complicações crônicas, aliviando a pressão sobre o sistema municipal de saúde.
Ao mesmo tempo, o cenário exige cautela. O aumento da oferta pode estimular o uso indiscriminado. Casos de efeitos adversos, como pancreatite e distúrbios gastrointestinais, preocupam profissionais da saúde. O médico Drauzio Varella já alertou que “a obesidade é uma doença crônica e não existe solução simples sem acompanhamento adequado”. A fala reforça a necessidade de controle e orientação.
Além da saúde, os reflexos se espalham pela economia. O chamado efeito Ozempic já altera hábitos de consumo em outros países. A redução do apetite diminui a compra impulsiva e pressiona setores como alimentos ultraprocessados e fast-food. O impacto chega de forma silenciosa, mas constante.
No setor de serviços, o comportamento também muda. O corpo deixa de ser apenas aparência e passa a ser gestão de saúde. No varejo farmacêutico, a expectativa é de crescimento com a entrada de novos concorrentes. Há ainda efeitos indiretos, como economia no transporte aéreo, com menor consumo de combustível.
No campo político, a queda da patente reacende o debate sobre a inclusão dessas terapias no Sistema Único de Saúde (SUS). Hoje, medicamentos dessa classe já são utilizados de forma restrita. Com versões mais acessíveis, cresce a pressão judicial para ampliar a oferta.
Outro ponto em discussão envolve a comparação com a cirurgia bariátrica. Pesquisas indicam que o procedimento cirúrgico pode gerar perda de até 24% do peso corporal, enquanto medicamentos incialmente apresentam resultados entre 4,7% e 15%. Ainda assim, as abordagens não são excludentes. O uso combinado pode melhorar resultados e segurança.
O mundo entra, assim, em uma nova etapa no enfrentamento da obesidade. Entre promessas de democratização do acesso e riscos de uso inadequado, o desafio será equilibrar inovação, responsabilidade e política pública. A mudança já começou. O efeito completo ainda está por vir.
Por: jornalista Marcos Ribeiro
