A jornalista e pesquisadora congonhense Isabella Mendes Freitas, 42 anos, conquistou o 1º lugar no Concurso Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular, promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A premiação reconhece pesquisas de excelência sobre cultura popular em todo o país.
O trabalho premiado analisa as relações entre fé, arte e patrimônio a partir do Museu de Congonhas e do entorno do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos. Ao todo, 121 estudos concorreram, avaliados por banca especializada.
Isabella recebeu o resultado como surpresa. “O primeiro lugar materializa o reconhecimento de um trabalho quase invisível e incentiva a continuidade das pesquisas sobre patrimônio e museus na contemporaneidade”, afirmou.
A pesquisa, defendida em 2024 como tese de doutorado, parte de uma ideia central: Congonhas não é apenas cenário histórico. É uma construção cotidiana. Um território moldado por moradores, romeiros, igreja, técnicos, gestores públicos e visitantes. Cada grupo participa, de forma direta ou indireta, da produção simbólica do patrimônio.
O estudo utiliza conceitos como colecionamento, artificação, hibridação e tradução para interpretar a cidade como espaço dinâmico, marcado por disputas de memória e reinvenções constantes. A autora alia rigor acadêmico à vivência de quem pesquisou a própria cidade natal.
O Museu de Congonhas foi escolhido como eixo central por sua singularidade. Trata-se de um museu de sítio, criado para interpretar um monumento reconhecido como patrimônio mundial. O equipamento cultural se insere em uma cidade que convive, simultaneamente, com a monumentalidade barroca e os impactos da mineração industrial.
Entre os principais achados está a constatação de que a construção do museu expôs conflitos estruturais do desenvolvimento local. Preservar ou transformar? Manter memórias ou abrir espaço ao novo? Como equilibrar fé, turismo, mineração e crescimento urbano? Essas tensões atravessam a história recente do município.
A pesquisa também analisa a ressignificação dos ex-votos. No espaço museológico, eles deixam de ser objetos de devoção íntima para se tornarem documentos históricos e bens culturais. Passam por processos de classificação e organização que atribuem novos sentidos à fé materializada.
Outro ponto destacado é o papel do museu como mediador entre fé, arte e políticas públicas de patrimônio. A atuação de educadores e ações educativas aproximam a linguagem técnica do cotidiano da população, ampliando o acesso ao conhecimento.
Para Isabella, Congonhas se consolida como caso emblemático nas Ciências Sociais. A cidade reúne tradição religiosa, arte barroca e atividade mineradora em um mesmo território. Um cenário que permite refletir sobre memória, modernidade e participação social.
O texto premiado deverá ser ampliado e publicado em livro. Entre os próximos passos, a pesquisadora pretende acompanhar as transformações do museu e aprofundar estudos sobre as réplicas dos profetas, tema que pode orientar seu pós-doutorado.
