O Governo de Minas anuncia recursos, inaugura obras e repete o slogan: “Aqui o trem prospera”. Mas, fora da vitrine, o cenário é outro. O trem da propaganda corre. O da realidade fiscal anda com freio puxado.
Nos últimos dias, o Executivo estadual tem divulgado a destinação de recursos em diversas regiões. A narrativa sugere um Estado em expansão, com caixa organizado e capacidade de investimento. Mas de onde vem esse dinheiro, se Minas segue mergulhada em uma das maiores dívidas públicas do país?
Parte significativa desses recursos vem do Acordo Judicial de Brumadinho, firmado com a Vale, Ministério Público, Defensoria Pública e União. É dinheiro de reparação por uma tragédia que matou 272 pessoas, devastou comunidades e contaminou a bacia do Rio Paraopeba. Não é receita própria do Estado. Não é fruto de eficiência fiscal. É indenização, com destino controlado e prazo limitado.
Ou seja: não é um cofre infinito. É um fundo com carimbo.
Enquanto isso, a dívida consolidada de Minas com a União gira em torno de R$ 165 bilhões, podendo superar R$ 200 bilhões com juros e passivos acumulados. Desde 2019, o estoque da dívida cresceu de forma expressiva, apesar do discurso de ajuste fiscal. O governo afirma ter pago mais de R$ 12 bilhões, mas o passivo continua subindo. A conta não fecha: paga-se uma parte, mas a dívida cresce mais rápido.
Em 2025, Romeu Zema trocou o slogan “Governo diferente, Estado eficiente” por “Aqui o trem prospera”. Agora, novamente, o governo substituto muda o slogan para “Minas é pra frente”. O marketing mudou. O discurso mudou. A estrutura fiscal, não. A expressão “trem”, tão mineira, foi apropriada para vender identidade e proximidade. Mas, nas estradas esburacadas, nas filas da saúde e nas escolas com infraestrutura precária, o “trem” parece emperrado. O cheiro de fumaça de óleo diesel não esconde o rangido dos trilhos velhos.
O governo também negocia a adesão a programas federais de renegociação da dívida, enquanto obtém decisões judiciais para suspender cobranças. Ao mesmo tempo, mantém renúncias fiscais bilionárias e anuncia pacotes de investimentos. A conta não fecha sem o apoio da União ou sem novas fontes extraordinárias.
A questão central é política e ética: vender prosperidade com dinheiro de tragédia é transparência ou ilusionismo? O cidadão vê anúncios, placas, discursos. A conta pública cresce, as promessas se multiplicam e a origem do dinheiro vira um quebra-cabeça para o cidadão comum.
Quem está sendo convencido de quê? Ou é a própria narrativa de poder?
A verdade é que Minas vive entre slogans e planilhas. Entre promessas e passivos. Entre a retórica de prosperidade e a dependência de acordos judiciais e renegociações federais.
O trem pode até prosperar na propaganda. Na vida real, ele ainda precisa de trilhos firmes, contas claras e menos marketing. A verdade é menos palatável que o slogan. Minas sobrevive no improviso, na dívida renegociada e na esperança de que o trem, um dia, volte aos trilhos.
