Foi impossível entrar no teatro como quem entra em um lugar comum. O espaço estava cheio. O som que gelava a respiração dizia mais que qualquer lotação. Antes mesmo da plateia encontrar a própria cadeira, a cena havia começado. As escadas já contavam a história, nos corredores, nos cantos. Corpos espalhados, inquietos, olhares perdidos, vazios, passos trêmulos, errantes.
A Companhia Xadrez Dance decidiu que o espetáculo começaria antes mesmo da cortina abrir. E começou no impacto. Convidou o público a atravessar, com o próprio corpo, a memória de um manicômio. Logo na entrada, atores e atrizes, caracterizados como internos de um manicômio, ocupavam o espaço com urgência, corredores e acessos. A música era densa, sombria, quase sufocante. Dava um nó no peito, arrepios. O ambiente não convidava ao conforto. Convidava à consciência.
Na plateia, não havia distância segura. Os personagens se escondiam, eram perseguidos. Fugiam. Se misturavam ao público entre as cadeiras. Eram caçados por figuras que representavam médicos, enfermeiros, psiquiatras. A cena simulava contenções, choques, punições. Tudo muito próximo. Tudo muito real. Ninguém piscava. Ninguém desviava o olhar. A encenação dissolvia o limite entre palco e plateia. Ninguém assistia de fora.
No espetáculo Holocausto Brasileiro Relatos de um Manicômio, a dança urbana virou grito contido. Falava dos manicômios. Falava de gente transformada em número, em sobra, em silêncio. Corpos no chão. Macas cruzando o palco. Outros eram contidos à força. Pacientes medicados, gestos repetidos. Rostos babados. Cabelos desgrenhados. Olhos aterrorizados. Nada era exagero. Tudo era denúncia. A história do Hospital Colônia de Barbacena ganhava forma, peso e carne diante dos olhos.
A dança urbana conduzia a narrativa com precisão e dor. Os movimentos eram secos, repetitivos, quase mecânicos. Como se o corpo tivesse desaprendido a ser livre. A iluminação recortava a cena. O azul das vestimentas contrastava com a luz precisa. Tudo pensado. Tudo sentido. Cada movimento era calculado e, ainda assim, pulsava dor real. A plateia prendeu o fôlego. Não dava para piscar. Não dava para desviar. A sensação era de invasão e, ao mesmo tempo, de pertencimento. Aquela história também era nossa. Não estava distante no tempo. Nem tão longe assim.
No final, o ritmo muda, trouxe alívio. Trouxe abraço. Os corpos se aproximam. Depois, um grande acolhimento coletivo. Não era perdão. Era humanidade. O carinho substituiu a violência. O toque virou cuidado. A plateia chorou. Familiares se emocionaram. O aplauso veio como descarga, em uma catarse necessária. Alívio e dor juntos. A certeza de que algumas histórias precisam doer para não se repetirem.
A coreografia assinada por Wellington Xadrez, Emerson Souza, Cristiano Lúcio e Kairon Gabriel conduziu a narrativa com respeito e coragem. A dança virou linguagem de memória. Falou de vidas descartadas, de corpos vendidos, de existências apagadas. Falou do Brasil que tentou esconder seus indesejados atrás de muros.
O Espetáculo X pediu responsabilidade e reafirma o papel da arte que incomoda. Mostrou que a dança também denuncia, educa e permanece. Quando as luzes se apagam, algo continua aceso. A memória. Algumas histórias não pedem silêncio. Pedem consciência. Pedem que a gente nunca mais esqueça.

Por: Jornalista Marcos Ribeiro
